Teste de resistência

Quem? Quem?Momento diário: perdi um pedaço de gruyère. Revirei a geladeira, conferi no cupom fiscal, culpei injustamente a caixa do supermercado. Então me veio uma luz. Peguei a chave do carro, desci as escadas correndo, abri a porta, enfiei a mão embaixo do banco do motorista (eu) e lá estava. Sinceramente, não esperava encontrá-lo tão bem, depois de (o queijo) enfrentar o calor infernal de Brasília trancado num automóvel. E o friozinho, à noite, também.

Por oito dias.

Não ando muito bem.

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Outras paixões

Os carros sumiramComo já se sabe desde o Ipiranga, o brasileiro é apaixonado por carro, e o brasiliense, aparentemente, mais do que os outros. Porém, contudo, entretanto, todavia, nem só de automóvel vive o coração do candango, como às vezes se dá a entender. Eventos neste último domingo de junho mostraram que o brasiliense também é apaixonado por moto (1º Passeio Motociclístico do Corpo de Bombeiros), por bicicleta (7º Passeio Ciclístico Rodas da Paz) e pelos próprios pés (Circuito das Estações – Etapa Inverno). Menos mal.

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Kafka e Conrad

Brasília é um barato, e eu...Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

Uma das delícias de voltar para casa é ouvir a pergunta de amigos e parentes: “E aí, tá gostando?” Sim, não, quase sempre mais ou menos; o que importa mesmo é a impressão de que a mudança foi outro dia. Porque cedo ou tarde a curiosidade e a falta de assunto são derrotadas pela crueldade dos fatos. Durmo um expatriado transitório e acordo um candango adotivo. O horror! O horror!

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Indefinível

De outro planeta?As frases mais famosas sobre Brasília – verídicas ou não – são, invariavelmente, dos “pais” da capital. Do exagero (”O céu é o mar de Brasília”, Lucio Costa) ao realismo (”O ruim de Brasília é que quando a gente chega lá percebe que a cidade está inacabada”, Oscar Niemeyer), passando pela poesia (”Tudo se transforma em alvorada nesta cidade, que se abre para o amanhã”, Juscelino Kubitschek), essas declarações têm em comum um tom oficioso e, de certa forma, previsível.

Não surpreende, portanto, que as melhores definições sejam de gringos:

“Em Brasília, a abstração da cidade oferece pelo menos uma certeza: ao menos aqueles que são loucos o suficiente para atravessar suas vias expressas urbanas – pondo a perigo suas vidas no processo – são seres humanos. A raça humana não é, em nenhum lugar, tão incongruente como nesse entorno extra-terrestre, com a exceção dessas criaturas minúsculas que se tocam e andam a pé.”
Jean Baudrillard, Cool Memories III, Fragmentos 1991-1995

“A impressão que tenho é de estar chegando em um planeta diferente.”
Iuri Gagarin, em visita a Brasília (1961)

E, para quem mantém uma relação difícil com as palavras, vem também do estrangeiro uma inspirada síntese visual, conquanto datada, da cidade.

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Gastronomia pública (II)

Milhões na mesaUm dos temas mais palpitantes do início do blog, a gastronomia pública, virou recentemente tema de série do Correio Braziliense*. O leitor do jornal ficou sabendo, por exemplo, que funcionam, hoje, dez restaurantes subsidiados na Esplanada dos Ministérios e que o mais barato é o do bloco R (Comunicações e Transporte), com um quilo de comida a diminutos R$ 7,97. Descobriu também que uma única empresa opera cinco desses estabelecimentos e que fora dali, no paraíso do Legislativo e do Judiciário, a comida é melhor e mais cara.

Algumas dúvidas, no entanto, permanecem. Restaurantes em órgãos públicos dão lucro? Um sócio da empresa Manancial garante que “vale a pena”. Para uma sócia do Taioba, porém, “o negócio é pouco lucrativo”. E os subsídios? Uma matéria informa que “os restaurantes da Esplanada não se beneficiam de subsídios integrais”. Outra garante que, no Legislativo e no Judiciário, “o volume de subsídios – como isenção ou redução na cota de aluguel, água ou energia – é menor”. Interessante e pouco conclusivo.

No fim, a série satisfaz como serviço e curiosidade, mas fica devendo no aspecto investigativo. A pança cheia, pelo menos, continua garantida.

* As matérias foram publicadas nos dias 24/5, 01/6, 08/6 e 15/6. O acesso ao conteúdo do Correio é restrito a assinantes.

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Vida e qualidade

Sombra e água (de coco) frescaOs brasilienses andam inconsoláveis. Depois de se consagrar como “cidade de melhor qualidade de vida no Brasil”, segundo ranking da consultoria americana Mercer, Brasília sequer aparece numa nova listagem, agora da revista britânica Economist. Rio de Janeiro e São Paulo ficam com a honraria, empatados no 92º lugar mundial, entre 140 concorrentes. Na avaliação da Mercer, divulgada em abril, Brasília ocupa a 105ª posição, à frente do Rio (117º), São Paulo (118º) e Manaus (130º).

Os argumentos da torcida candanga já estão na ponta da língua: a comparação da Mercer é mais abrangente, por considerar 215 países, e mais criteriosa, por avaliar 39 fatores em 10 categorias contra 30 e 5, respectivamente, da Economist. Brasília na cabeça!

Aliás, deve ser por isso que no banco de permutas do meu trabalho há 209 pessoas querendo sair do Distrito Federal (para 19 capitais) e 9 interessadas em fazer o trajeto contrário.

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Agora sou contra

Consciência cidadãComo se sabe, os imóveis são escassos em Brasília, o que provoca todo tipo de excentricidade no mercado. Um apartamento de 90 m² no Sudoeste, usado, não sai por menos de R$ 600 mil (as más línguas – e os anúncios numerosos – sugerem que, atualmente, não sai nem por mais). No novo bairro “ecológico” Noroeste, com início de vendas previsto para o segundo semestre, o metro quadrado é estimado em R$ 8 mil. Os apartamentos mais humildes não devem custar menos de R$ 840 mil. Mas o pessoal acha tudo muito normal.

O que dizer da reação à perspectiva de construção de duas novas quadras no supracitado Sudoeste? Sempre que o polêmico assunto esquenta, aparecem faixas indignadas na área do futuro empreendimento, com mensagens como “Expansão = desmatamento criminoso + 2.000 veículos na área” e “Expansão irresponsável: quem estará por trás desse projeto?”. Do projeto, quem está por trás é a construtora Antares. E dos protestos? Por acaso seriam alguns dos moradores das 26 (vinte e seis) outras quadras residenciais da região?

O curioso é que, na década de 1990, quando começou a ocupação do Setor Sudoeste, ou ao longo dos anos desde então, nenhum desses ciosos cidadãos tenha levantado a voz contra o “desmatamento criminoso” e a “expansão irresponsável”. Agora, com a possível chegada, numa só batelada, de 22 prédios e 3.500 vizinhos, assistimos ao glorioso despertar do espírito cívico na população local! Detalhe: as duas novas quadras, exatamente como as outras 26, estão previstas no projeto Brasília Revisitada, de Lucio Costa, apresentado em 1989.

E o pessoal acha tudo muito normal.

p.s.: Existe, sim, um aspecto nebuloso na história: a forma de transferência dos terrenos da proprietária anterior, a Marinha do Brasil, à construtora, sob investigação do Ministério Público Federal.

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Febre da chuva

Ajeita isso aí, São Pedro!Para dar adeus a maio, um domingão de febre e chuva, mais um sinal de que o mundo vai acabar em breve. Este ano, em vez de marcar o início do festival de protestos contra a seca (”nossa, já faz quase dois meses que não chove, e tá só começando”), junho será apenas junho. E a febre? Digamos que é mais fácil chover em junho31 de maio do que eu ficar doente.

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CCBB no SCES

BrizolãoNão é exatamente um oásis num deserto, mas pode ser um centro cultural num setor de clubes esportivos. O CCBB de Brasília reúne atrações para todos os gostos e, surpreendentemente, não fica a dever aos seus co-irmãos do Rio e São Paulo. A exposição Virada Russa, por exemplo, com obras de Chagall, Goncharova, Kandinsky, Maliévitch, Rodchenko e Tátlin, começou o circuito nacional por aqui (segue até dia 7). Aberto em 2000, com uma arquitetura levemente evocativa dos CIEPs, o CCBB também oferece programação de cinema, vídeo, música, debates, além de livraria, café, transporte gratuito e, até o início de 2010, a possibilidade de um esbarrão no presidente Lula, enquanto o pessoal dá uma guaribada no Palácio do Planalto.

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Passeata de incompetência

Onde estarão os carros do BPTran e do Detran?Devo ser uma das poucas pessoas por aqui que não odeiam as manifestações na Esplanada. Pelo contrário, numa capital tão distante – em mais de um sentido – da realidade do país, passei a achar que marchas e reuniões em praça pública são a única maneira de interferir no alheamento que impera no coração do Brasil.

Exageros poéticos à parte, o fato é que uma manifestação de agricultores parou as vias centrais de Brasília na manhã da quarta-feira (27), fazendo os motoristas arrancarem os cabelos – cada um, naturalmente, em seu próprio carro. A quinta-feira amanheceu com a indignação costumeira nos jornais. “Foi preciso muita paciência”, choveu no molhado o Jornal de Brasília. “Em 6 anos, trânsito será igual ao de SP”, agourou o Correio Braziliense.

As autoridades explicaram, como de hábito, que há carros demais, que os manifestantes não cooperam (!), que o sistema viário está estrangulado. O Batalhão de Trânsito (BPTran), da Polícia Militar, garantiu até que tem esquema especial para eventualidades como aquela.

O que ninguém – nem os jornais, nem as autoridades – contou é que, entra passeata, sai passeata, não se vê uma intervenção concreta para reduzir os efeitos negativos no trânsito. Desvios, fechamentos de acessos, inversões de faixas, desligamento de semáforos e guardas na orientação ao motorista são medidas que, aparentemente, nunca passaram pelas cabeças pensantes do BPTran e do Detran.

O “esquema especial” da PM resume-se a fechar três faixas aos veículos para que ninguém seja atropelado. É um bom início. A vida, afinal, deve vir em primeiro lugar. Pena que a iniciativa venha sempre em último.

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Deu zebra (II)

STCEVMea culpa, mea maxima culpa. Parado diante do Brasília Shopping, tentando ir para o trabalho, eu poderia ter pegado um táxi, caminhado, pulado na garupa de uma bicicleta ou até pedido carona a um dos carroceiros que circulam pela cidade. Em vez disso, cedi à tentação de confirmar a sabedoria popular e subi na zebrinha linha 22, diligente cumpridora do itinerário simplificado “SQS 216-416/W3 Sul-L2 Norte (SDN)/W3 Norte-L2 Sul (SDN)”.

Uma reta imaginária entre meu ponto de partida e meu destino desejado teria aproximadamente 1.800 metros. A velocidades médias de 5 km/h e 20 km/h, percorrer o trajeto consumiria 21,6 minutos a pé ou 5,4 minutos de bicicleta. De ônibus, seguindo pelas vias de circulação, parando em sinais e faixas, cruzando o Eixo Monumental três vezes (!) e descendo bem longe da meta, gastei mais de 30 minutos.

Anote aí: às vezes, para pegar uma zebrinha, só sendo um autêntico jumento.

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Andança

Vim, tanta areia andeiAntes o problema de Brasília fosse apenas não ter calçada. A verdade é que o heróico pedestre precisa vencer muito mais que a falta de meio-fio para chegar a algum lugar. Tome-se como exemplo a caminhada da quadra 1 à 5 do Setor de Autarquias Sul. Para cumprir a missão, é impossível percorrer qualquer trajeto que se assemelhe, mesmo que vagamente, a uma linha reta. São “estacionamentos” de terra, passagens sem saída, depressões súbitas, áreas interditadas: tudo a conspirar contra o andarilho. No fim, 500 metros podem se transformar, num piscar de olhos, em 700, 800… E, se bobear, o sujeito ainda acaba no prédio errado.

***

Outra prova interessante da olimpíada do pedestre é atravessar o Eixo Monumental. Em vários trechos, essa via desimportante, que não faz mais que definir o Plano Piloto, não tem sinal, farol, semáforo ou sinaleiro. Ao descer num ponto mal localizado, o caminhante que deseja ir do norte ao sul ou do sul ao norte vira um arremedo de Eddie Murphy no filme Os picaretas. Acredite: na telona, é engraçado.

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Bolha de sabão

Pletora de alegriaNão consigo esconder um prazer meio sádico diante de anúncios do tipo “vendo apartamento urgente”. Quando o aviso se une a rumores de estagnação no mercado imobiliário, então, a satisfação é redobrada. Não, não é nada pessoal. Mas há alguma coisa fora da ordem, fora da nova ordem mundial, num mercado como o brasiliense, que negocia um apartamento (de 60 metros quadrados) a R$ 275 mil para venda e a R$ 1,2 mil para aluguel.

Os valores “corretos” do nada hipotético imóvel acima, a se respeitar a proporção lugar-comum de 1% entre preço e aluguel, deviam ser de R$ 120 mil do lado de lá ou de R$ 2.750 do lado de cá. (Se você não entendeu a conta, aceite o conselho, não compre ou alugue um imóvel sozinho.) Pequenas distorções, para mais ou para menos, são normais, em função tanto do mercado local como da economia em geral. Distorções em níveis brasilienses, por outro lado, só se explicam à base de forças ocultas, populares desde a época da vassourinha.

Curiosamente, um assunto tão interessante, que afeta tanta gente, não encontra muita repercussão na imprensa local. Talvez seja delicado demais, complexo demais ou simplesmente chato demais. De toda sorte, há um pobre coitado por aí, vendendo seu apartamento com urgência, a preço provavelmente “abaixo do mercado”.

Pode ser um sinal. Ou pode ser apenas uma bolhinha de sabão. Sopremos juntos.

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Teresa, Paulinho, Maria Joana

A volta do sambaNão pode estar muito certo ouvir um samba, um samba de verdade, num dos hotéis mais requintados de Brasília, em confortáveis cadeiras numeradas. Falta alguma coisa, talvez não a moda da Lapa, talvez não a descontração estereotipada do Rio, mas falta alguma coisa que nem uma tirada maliciosa provê. E tirada maliciosa não falta, não quando a estrela do espetáculo arremata Pecado capital com a provocação de sempre, aquela história de que Brasília é o lugar perfeito para a música. E é mesmo. Dinheiro na mão é vendaval. Dinheiro na mão é solução. E solidão. A conversa é boa, a levada é boa, Teresa Cristina é boa. Não, não pode estar muito certo ouvir um samba, um samba de verdade, por aqui. Mas é preciso viver. E viver não é brincadeira não.

Maria Joana
(Sidney Miller)

Não faz feitiço quem não tem um terreiro
Nem batucada quem não tem um pandeiro
Não vive bem quem nunca teve dinheiro
Nem tem casa pra morar
Não cai na roda quem tem perna bamba
Não é de nada quem não é de samba
Não tem valor quem vive de muamba
Pra não ter que trabalhar
Eu vou procurar um jeito de não padecer
Porque eu não vou deixar a vida sem viver

Mas acontece que a Maria Joana
Acha que é pobre, mas nasceu pra bacana
Mora comigo, mesmo assim não me engana
Ela pensa em me deixar
Já decidiu que vai vencer na vida
Saiu de casa toda colorida
Levou dinheiro pra comprar comida
Mas não sei se vai voltar
Eu vou perguntar
Joana, o que aconteceu?
Dinheiro não faz você mais rica do que eu

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Fora dos eixos

Encontre a DF-002O primeiro passo para entender a disposição de Brasília é visualizar o Eixo Monumental e o Eixão. Etc. etc. etc. Na cidade em que tudo parece fácil, o que me soou difícil, hoje, foi a dúvida de um amigo: como se chama o Eixão? Sim, é meio como perguntar “qual é o nome do João?”, mas eu entendi. E, com a ajuda dos universitários, descobri que o Eixão se chama Eixo Rodoviário (de Brasília). Mais: também atende por DF-002 e é escoltado de um lado pelo Eixinho L e do outro pelo Eixinho W. Compreendeu?

Ah, o Eixão, obviamente, atravessa o Eixo Monumental. Pelo Buraco do Tatu.

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