A se acreditar na coluna Holofote, da Veja, o empolgante mercado de jornais impressos de Brasília ganhará um novo concorrente em breve. O grupo português Ongoing, que em 2009 lançou o Brasil Econômico, estaria planejando um diário – Brasília Post – para concorrer com o Correio Braziliense e o Jornal de Brasília. Os dois impolutos títulos que ora concentram os leitores da capital, como se sabe, são aqueles que chamam a investigação do imbróglio envolvendo o governador José Roberto Arruda de “CPI da Codeplan” e que, dia sim, dia também, publicam desinteressadas manchetes sobre o miraculoso mercado imobiliário local. É o típico caso em que fazer melhor vai ser extremamente… fácil.
Imprensa que eu gamo
3 com 33
Em três anos, clichês à parte, muita coisa muda. O indivíduo troca de emprego, troca de carro, troca de endereço. Passa a falar de outros assuntos. Aprende a se situar, a andar na linha e a superar obstáculos. Até começa a se alimentar melhor. Em respeito a esse movimento incessante da vida, para marcar meus três anos de Brasília, utilizarei um expediente inédito: a citação. É ou não é?
Será que é isso que eu necessito?
(Titãs)
Quem é que precisa
Tomar cuidado com o que diz?
Quem é que precisa
Tomar cuidado com o que faz?
Será que é isso o que eu necessito?
Será que é isso o que eu necessito?
Ninguém fez nada, ninguém tem culpa
Ninguém fez nada de mais, filha da puta!
Quem aqui
Não tem medo de passar ridículo?
Quem aqui, como eu
Tem a idade de Cristo quando morreu?
Quem é que se importa
Com o que os outros vão dizer?
Quem é que se importa
Com o que os outros vão pensar?
Será que é isso o que eu necessito?
Será que é isso o que eu necessito?
Não sei o que você quer, nem do que você gosta
Não sei qual é o problema, qual é o problema seu bosta?!
Quem aqui
Não tem medo de se achar ridículo?
Quem aqui, como eu
Tem a idade de Cristo quando morreu?
Cosmopolitana
Os restaurantes fecharem as portas por todo o período das festas de fim de ano só surpreende os recém-chegados à cosmopolita capital do Brasil. A decisão, garantem os locais, não reflete traço interiorano; é pura tradição. Mas as peculiaridades do calendário gregoriano eventualmente levam a situações um pouco mais esdrúxulas. Como o cidadão se aprochegar da porta de um restaurante na segunda-feira imediatamente posterior às festas (dia 4) e se deparar com o aviso singelo: “Reabriremos no dia 5″. Sim, na terça-feira, depois de fazerem as compras e arrumarem a casa. Coisa de cidade grande.
Frases de Oscar
Aos 102 anos, completados há uma semana, Oscar Niemeyer carrega o peso de ser um brasileiro “gênio da arquitetura”. Assim qualificado, é convocado a dar opinião não só sobre seu ofício, como também sobre política, casamento, longevidade, religião, cultura, esporte… É provavelmente Brasília, contudo, o tema mais freqüente nas entrevistas. A cidade de três pais e nenhuma mãe merece o respeito do gênio, mas nada que se confunda com papas na língua. No passado, Niemeyer lamentou sua incompletude; hoje, devidamente provocado, usa substantivos menos nobres para defini-la, em parte.
“Bom, (em) Brasília, você tem acho que duas classes de habitantes… Você tem o habitante que mora no Plano Piloto, que tem apartamento, tem tudo. Essa parte de apartamento ligado à escola e ao comércio local foi muito bem pensada pelo Lucio, funciona muito bem. Agora, você atravessa Brasília, chega nas cidades-satélites, é uma merda.”
Oscar Niemeyer, em entrevista a Kennedy Alencar, da RedeTV!
Clima de deserto
É no fim do ano que Brasília faz jus à fama, para muitos indevida, de ser um deserto. O título, no entanto, nada tem a ver com a ausência de chuvas (ora abundantes) ou com a amplitude térmica. É deserto no cansado sentido figurado: deserto de gente e, incrivelmente, até de carros. Com os recessos do funcionalismo público, e a despeito da crescente paixão dos locais pela cidade, as malas se multiplicam, as avenidas se esvaziam e, aos poucos, o silêncio se torna ensurdecedor, a comprovar que existe, sim, saída para as mazelas da capital. Aliás, saídas: Aeroporto Internacional JK, Rodoviária do Plano Piloto, Rodoferroviária, Saída Sul, Saída Norte.
Outra cinqüentona
Quando, há mais de 50 anos, Adhemar de Barros lançou as bases da doutrina do “rouba, mas faz”, provavelmente não imaginava que esta chegaria robusta ao século 21. Pois na capital deste Brasil varonil muita gente, com destaque para os segmentos “mais educados”, adotou o lema do finado Promessão para defender o governador José Roberto Arruda. O suposto chefe de um suposto esquema de suposta propina não titubeou e embarcou na estratégia. No confuso pronunciamento em que anunciou sua desfiliação do DEM, Arruda denunciou um “triste espetáculo”, “armadilhas”, “insinuações”, “vis expedientes”, “farsa”, mas, para provar que não cometeu crime algum, preferiu recorrer aos “dois mil ônibus novos”, “mil salas de aula” e “duas mil obras em andamento” que marcam “uma gestão que está construindo uma Brasília melhor”.
Uma possível solução para o problema, seguindo essa linha de raciocínio, seria decuplicar o minguado subsídio de R$ 16.099 ora destinado ao ocupante do cargo de governador do Distrito Federal. Com uma remuneração bruta anual superior a R$ 2 milhões, talvez o gestor, sentindo-se devidamente recompensado, se dispusesse a fazer sem roubar. Ou não.
50 Cruzeiro
Uma repassada por seus nomes anteriores – Cemitério e Gavião – basta para ver que o Cruzeiro não é a típica vizinhança de Brasília. Nas frentes das casas, vizinhos batem papo; em torno dos prédios, cercas protegem os moradores de si mesmos. Nas ruas, carros e motos – ocasionalmente importados, quase sempre populares – circulam num ritmo diferente da procissão a vidros fechados das grandes avenidas. Lá existe feira, ginásio, quiosque de costureira, escola de samba, bar de flamenguista.
Nascido “núcleo urbano”, reclassificado como Setor Residencial Econômico Sul (SRES), uniu-se, por lei e afinidade, ao Setor de Habitações Coletivas Econômicas Sul (SHCES) e assim virou, no fim da década de 1980, Região Administrativa.
Hoje, 30 de novembro, o Cruzeiro completa 50 anos. Vizinho do nobre Sudoeste, tecnicamente no Plano Piloto, não passa de um bairro de subúrbio. Parabéns.
Yes, we have mensalão
Da edição deste sábado da Folha de S. Paulo:
Relatório da Polícia Federal na Operação Caixa de Pandora traz uma gravação na qual o governador José Roberto Arruda (DEM-DF) pede a um assessor que repasse a políticos aliados dinheiro de empresas contratadas pelo governo.
Contra esse suposto esquema, a PF deflagrou ontem a operação, cumprindo 16 mandados de busca e apreensão em Goiânia, Belo Horizonte e Brasília. Na capital federal foram feitas buscas nas casas e em gabinetes de secretários do governo e de deputados distritais, além de um anexo na casa oficial de Arruda. Mais de R$ 700 mil foram apreendidos, além de dólares e euros.
José Roberto Arruda, para os desinformados, é aquele cidadão probo que, em 2001, negou veementemente qualquer envolvimento no episódio da violação do painel do Senado, para dias depois admitir sua participação e renunciar, salvando-se da cassação do mandato. Nessa época, proferiu um dos discursos mais emocionantes da história do Senado Federal, revelador de muitos de seus princípios políticos.
“Permitam-me [tomar mais cinco minutos], com o meu sofrimento, com as vísceras da minha emoção expostas à execração pública. Eu que não tenho bens pessoais, não tenho fortuna. Mas tenho a honra. E tenho filhos, que têm o meu nome, os naturais e os que adotei. E a esta honra, eu serei fiel, enquanto viver.”
José Roberto Arruda, 18 de abril de 2001
Sorrindo (à toa)
Se Brasília não é o paraíso, deve ficar bem perto. Segundo pesquisa realizada como parte de tese de doutorado em economia, a ser defendida na UCB, 85,69% dos brasilienses são felizes ou muito felizes. Os infelizes ou muito infelizes, por sua vez, representam só 5,92%. Aspectos como gênero, estado civil e religiosidade, aparentemente, não exercem influência significativa no grau de satisfação com a própria vida. A verdade, não obstante, é que as chances de ser feliz são um tantinho maiores para o seguinte perfil: mulher, acima de 45 anos, solteira, sem filhos, religiosa. Vai encarar?
Convenções
Reinaugurado (parcialmente) em 2005, o Centro de Convenções Ulysses Guimarães ocupa 54 mil metros quadrados e tem capacidade para 9,4 mil pessoas, de acordo com a Secretaria de Turismo do Distrito Federal. Recebe, anualmente, dezenas de espetáculos, feiras, exposições e, ahm, convenções. Nestes quatro anos do novo centro, aconteceram lá apresentações de estrelas da MPB, como Caetano Veloso, Chico Buarque e Marisa Monte, e eventos de porte, como o Fórum Espiritual Mundial, organizado pela União Planetária. E, para completar, a Secretaria de Turismo aproveita para incentivar o transporte solidário: o CCUG deve ser o único centro de convenções sem estacionamento no mundo.
Os mandarins
Momento histórico na última terça-feira: Shimon Peres, presidente de Israel, recebeu da Câmara Legislativa do Distrito Federal o título de cidadão honorário de Brasília. Extasiado com a comenda, o Prêmio Nobel da Paz de 1994 rasgou-se em doces palavras, que culminaram numa bombásticagrandiloqüente descrição da cidade: “Brasília é a capital do mundo novo porque aqui criam um lugar maravilhoso onde o homem está no centro de tudo”.
Embora não haja razão para se desconfiar da sinceridade do líder israelense, sua frase contrasta radicalmente com as impressões de outras personalidades que estiveram por aqui nestes quase 50 anos. E talvez o melhor exemplo diverso venha de Simone de Beauvoir, uma autêntica pioneira, que conheceu o Planalto Central já em 1960, ao lado de Sartre e ciceroneada pelo casal Jorge Amado e Zélia Gattai.
“À noite, enfim, chegamos a Brasília. Uma maquete em tamanho natural. Essa falta de humanidade salta logo aos olhos… Só se pode circular de automóvel… A rua, esse lugar de encontro entre moradores e turistas, lojas e residências, sempre imprevista – a rua, tão cativante em Chicago como no Rio, por vezes deserta e sonhadora, mas cujo silêncio é vivo. A rua, em Brasília, não existe nem existirá.”
“Guardo a impressão de ter visto nascer um monstro, cujo coração e pulmão funcionam artificialmente, graças a processos de um custo mirabolante.”
Simone de Beauvoir, A força das coisas
Justify my love
Um debate acalorado movimenta a capital nos últimos dez dias: Madonna ou Paul McCartney, quem deve fazer o grande show dos 50 anos de Brasília? O ex-beatle quase foi descartado, por não garantir exclusividade, mas Macca, aparentemente, continua firme na disputa. Madonna, por sua vez, mantém o mistério, enquanto se engaja em ações filantrópicas no Rio. Com um ou outra, ou ainda uma terceira (Beyoncé?), a organização da festa tem uma tarefa complicada pela frente: decidir se o parabéns para a capital brasileira vai ser em português ou inglês.
Inflando a bolha
O Correio Braziliense, em sua observação sempre científica do mercado imobiliário da capital, decreta na primeira página deste domingo: “Noroeste alavanca preços dos imóveis”. Para justificar a conclusão, o jornal ouviu uma turma absolutamente desinteressada nos efeitos de uma manchete desse quilate: os empresários do setor. Num show de isenção, os nobres analistas prevêem que, em cinco anos, o metro quadrado de um apartamento alcançará R$ 20 mil. Em outras palavras, ou números, um imóvel de 80 m² custará a bagatela de R$ 1.600.000,00. Já dá até para imaginar o comercial: que cobertura duplex em Ipanema, que nada, compre um aconchegante loft na área mais nobre de Brasília!
Se o repórter do Correio não conhece a lição mais rudimentar do jornalismo, os “especialistas” do mercado imobiliário, a se julgar pela fundamentação do prognóstico milionário, também parecem ter perdido a primeira aula do curso de investimentos: rentabilidade passada não é garantia de rendimento futuro.
Eu sei. Há (muita) gente que, mesmo acreditando em saci, mula-sem-cabeça e curupira, acha que bolha imobiliária não passa de delírio de lunático desinformado. Que o diga um vizinho que, há meses, mantém na varanda uma bela faixa amarela, na esperança de vender seu valorizado apartamento por um preço justo.
Meu conselho ao pobre cidadão: tenta botar um anúncio no Correio.
Viajou
Nada de Rio de Janeiro, Salvador ou Fortaleza. Nem de Amazônia, Pantanal ou Cataratas. Nos próximos meses, o tema do estande brasileiro nas principais feiras de turismo do mundo será a cinqüentona Brasília, com destaque para sua arquitetura modernista. Marcado por curvas, o espaço invoca o estilo de Oscar Niemeyer, além de pôr em destaque imagens da Catedral e do Congresso Nacional, deixando lugares insossos como Fernando de Noronha e Bonito em segundo plano. “Não poderíamos deixar passar esta oportunidade de divulgar Brasília mundialmente, aproveitando o aniversário de 50 anos da capital do país”, explicou Jeanine Pires, presidente da Embratur.
O novo estande estreará no World Travel Market, de 9 a 12 de novembro, em Londres, e depois viajará para Buenos Aires, Barcelona, Lisboa, Madri e Berlim. Um itinerário quase tão interessante quanto Brasília.
Cartel general (II)
Revoltados com as espúrias acusações de que manteriam, por combinação, o preço da gasolina a R$ 2,67, os donos de postos de Brasília decidiram mostrar nas bombas a lisura do negócio. Desde esta semana, o combustível custa R$ 2,74, em todos os estabelecimentos. Num esforço comovente, os probos comerciantes ignoram as diferenças de custos entre si, apenas para proporcionar ao freguês a conveniência de saber com antecedência quanto vai gastar para encher o tanque.
Por isso, e só por isso, os 38 postos de Brasília pesquisados pela Agência Nacional de Petróleo na semana de 18 a 24 de outubro (pré-aumento) registraram um preço médio de R$ 2,68, com variação de apenas 5 centavos entre o menor e o maior, enquanto os 60 postos visitados na distante Goiânia tiveram um preço médio de R$ 2,57 e variação de 14 centavos. Detalhe: o valor médio cobrado pelas distribuidoras nas duas cidades é praticamente igual.
Aos paranóicos que, a despeito das evidências, continuam achando que existe um cartel em operação por aqui resta procurar os órgãos competentes: ANP (0800-970-0267), Secretaria de Defesa Econômica (SDE) e Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Quem chegar ao cúmulo de imaginar que se trata de crime contra a ordem econômica pode, ainda, acionar o Ministério Público.