50 Cruzeiro

Lar da nobreza da capitalUma repassada por seus nomes anteriores – Cemitério e Gavião – basta para ver que o Cruzeiro não é a típica vizinhança de Brasília. Nas frentes das casas, vizinhos batem papo; em torno dos prédios, cercas protegem os moradores de si mesmos. Nas ruas, carros e motos – ocasionalmente importados, quase sempre populares – circulam num ritmo diferente da procissão a vidros fechados das grandes avenidas. Lá existe feira, ginásio, quiosque de costureira, escola de samba, bar de flamenguista.

Nascido “núcleo urbano”, reclassificado como Setor Residencial Econômico Sul (SRES), uniu-se, por lei e afinidade, ao Setor de Habitações Coletivas Econômicas Sul (SHCES) e assim virou, no fim da década de 1980, Região Administrativa.

Hoje, 30 de novembro, o Cruzeiro completa 50 anos. Vizinho do nobre Sudoeste, tecnicamente no Plano Piloto, não passa de um bairro de subúrbio. Parabéns.

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Yes, we have mensalão

Uma chance para o candangoDa edição deste sábado da Folha de S. Paulo:

Relatório da Polícia Federal na Operação Caixa de Pandora traz uma gravação na qual o governador José Roberto Arruda (DEM-DF) pede a um assessor que repasse a políticos aliados dinheiro de empresas contratadas pelo governo.

Contra esse suposto esquema, a PF deflagrou ontem a operação, cumprindo 16 mandados de busca e apreensão em Goiânia, Belo Horizonte e Brasília. Na capital federal foram feitas buscas nas casas e em gabinetes de secretários do governo e de deputados distritais, além de um anexo na casa oficial de Arruda. Mais de R$ 700 mil foram apreendidos, além de dólares e euros.

José Roberto Arruda, para os desinformados, é aquele cidadão probo que, em 2001, negou veementemente qualquer envolvimento no episódio da violação do painel do Senado, para dias depois admitir sua participação e renunciar, salvando-se da cassação do mandato. Nessa época, proferiu um dos discursos mais emocionantes da história do Senado Federal, revelador de muitos de seus princípios políticos.

“Permitam-me [tomar mais cinco minutos], com o meu sofrimento, com as vísceras da minha emoção expostas à execração pública. Eu que não tenho bens pessoais, não tenho fortuna. Mas tenho a honra. E tenho filhos, que têm o meu nome, os naturais e os que adotei. E a esta honra, eu serei fiel, enquanto viver.”
José Roberto Arruda, 18 de abril de 2001

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Sorrindo (à toa)

Uma tia felizSe Brasília não é o paraíso, deve ficar bem perto. Segundo pesquisa realizada como parte de tese de doutorado em economia, a ser defendida na UCB, 85,69% dos brasilienses são felizes ou muito felizes. Os infelizes ou muito infelizes, por sua vez, representam só 5,92%. Aspectos como gênero, estado civil e religiosidade, aparentemente, não exercem influência significativa no grau de satisfação com a própria vida. A verdade, não obstante, é que as chances de ser feliz são um tantinho maiores para o seguinte perfil: mulher, acima de 45 anos, solteira, sem filhos, religiosa. Vai encarar?

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Convenções

Onde eu paro, moço?Reinaugurado (parcialmente) em 2005, o Centro de Convenções Ulysses Guimarães ocupa 54 mil metros quadrados e tem capacidade para 9,4 mil pessoas, de acordo com a Secretaria de Turismo do Distrito Federal. Recebe, anualmente, dezenas de espetáculos, feiras, exposições e, ahm, convenções. Nestes quatro anos do novo centro, aconteceram lá apresentações de estrelas da MPB, como Caetano Veloso, Chico Buarque e Marisa Monte, e eventos de porte, como o Fórum Espiritual Mundial, organizado pela União Planetária. E, para completar, a Secretaria de Turismo aproveita para incentivar o transporte solidário: o CCUG deve ser o único centro de convenções sem estacionamento no mundo.

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Os mandarins

Mais importante que o Nobel de 1994Momento histórico na última terça-feira: Shimon Peres, presidente de Israel, recebeu da Câmara Legislativa do Distrito Federal o título de cidadão honorário de Brasília. Extasiado com a comenda, o Prêmio Nobel da Paz de 1994 rasgou-se em doces palavras, que culminaram numa bombásticagrandiloqüente descrição da cidade: “Brasília é a capital do mundo novo porque aqui criam um lugar maravilhoso onde o homem está no centro de tudo”.

Embora não haja razão para se desconfiar da sinceridade do líder israelense, sua frase contrasta radicalmente com as impressões de outras personalidades que estiveram por aqui nestes quase 50 anos. E talvez o melhor exemplo diverso venha de Simone de Beauvoir, uma autêntica pioneira, que conheceu o Planalto Central já em 1960, ao lado de Sartre e ciceroneada pelo casal Jorge Amado e Zélia Gattai.

“À noite, enfim, chegamos a Brasília. Uma maquete em tamanho natural. Essa falta de humanidade salta logo aos olhos… Só se pode circular de automóvel… A rua, esse lugar de encontro entre moradores e turistas, lojas e residências, sempre imprevista – a rua, tão cativante em Chicago como no Rio, por vezes deserta e sonhadora, mas cujo silêncio é vivo. A rua, em Brasília, não existe nem existirá.”

“Guardo a impressão de ter visto nascer um monstro, cujo coração e pulmão funcionam artificialmente, graças a processos de um custo mirabolante.”
Simone de Beauvoir, A força das coisas

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Justify my love

Parabéns pra você...Um debate acalorado movimenta a capital nos últimos dez dias: Madonna ou Paul McCartney, quem deve fazer o grande show dos 50 anos de Brasília? O ex-beatle quase foi descartado, por não garantir exclusividade, mas Macca, aparentemente, continua firme na disputa. Madonna, por sua vez, mantém o mistério, enquanto se engaja em ações filantrópicas no Rio. Com um ou outra, ou ainda uma terceira (Beyoncé?), a organização da festa tem uma tarefa complicada pela frente: decidir se o parabéns para a capital brasileira vai ser em português ou inglês.

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Inflando a bolha

Uma claque que não fica paradaO Correio Braziliense, em sua observação sempre científica do mercado imobiliário da capital, decreta na primeira página deste domingo: “Noroeste alavanca preços dos imóveis”. Para justificar a conclusão, o jornal ouviu uma turma absolutamente desinteressada nos efeitos de uma manchete desse quilate: os empresários do setor. Num show de isenção, os nobres analistas prevêem que, em cinco anos, o metro quadrado de um apartamento alcançará R$ 20 mil. Em outras palavras, ou números, um imóvel de 80 m² custará a bagatela de R$ 1.600.000,00. Já dá até para imaginar o comercial: que cobertura duplex em Ipanema, que nada, compre um aconchegante loft na área mais nobre de Brasília!

Se o repórter do Correio não conhece a lição mais rudimentar do jornalismo, os “especialistas” do mercado imobiliário, a se julgar pela fundamentação do prognóstico milionário, também parecem ter perdido a primeira aula do curso de investimentos: rentabilidade passada não é garantia de rendimento futuro.

Eu sei. Há (muita) gente que, mesmo acreditando em saci, mula-sem-cabeça e curupira, acha que bolha imobiliária não passa de delírio de lunático desinformado. Que o diga um vizinho que, há meses, mantém na varanda uma bela faixa amarela, na esperança de vender seu valorizado apartamento por um preço justo.

Meu conselho ao pobre cidadão: tenta botar um anúncio no Correio.

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Viajou

Preparando-se para as hordas de turistasNada de Rio de Janeiro, Salvador ou Fortaleza. Nem de Amazônia, Pantanal ou Cataratas. Nos próximos meses, o tema do estande brasileiro nas principais feiras de turismo do mundo será a cinqüentona Brasília, com destaque para sua arquitetura modernista. Marcado por curvas, o espaço invoca o estilo de Oscar Niemeyer, além de pôr em destaque imagens da Catedral e do Congresso Nacional, deixando lugares insossos como Fernando de Noronha e Bonito em segundo plano. “Não poderíamos deixar passar esta oportunidade de divulgar Brasília mundialmente, aproveitando o aniversário de 50 anos da capital do país”, explicou Jeanine Pires, presidente da Embratur.

O novo estande estreará no World Travel Market, de 9 a 12 de novembro, em Londres, e depois viajará para Buenos Aires, Barcelona, Lisboa, Madri e Berlim. Um itinerário quase tão interessante quanto Brasília.

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Cartel general (II)

RemarcandoRevoltados com as espúrias acusações de que manteriam, por combinação, o preço da gasolina a R$ 2,67, os donos de postos de Brasília decidiram mostrar nas bombas a lisura do negócio. Desde esta semana, o combustível custa R$ 2,74, em todos os estabelecimentos. Num esforço comovente, os probos comerciantes ignoram as diferenças de custos entre si, apenas para proporcionar ao freguês a conveniência de saber com antecedência quanto vai gastar para encher o tanque.

Por isso, e só por isso, os 38 postos de Brasília pesquisados pela Agência Nacional de Petróleo na semana de 18 a 24 de outubro (pré-aumento) registraram um preço médio de R$ 2,68, com variação de apenas 5 centavos entre o menor e o maior, enquanto os 60 postos visitados na distante Goiânia tiveram um preço médio de R$ 2,57 e variação de 14 centavos. Detalhe: o valor médio cobrado pelas distribuidoras nas duas cidades é praticamente igual.

Aos paranóicos que, a despeito das evidências, continuam achando que existe um cartel em operação por aqui resta procurar os órgãos competentes: ANP (0800-970-0267), Secretaria de Defesa Econômica (SDE) e Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Quem chegar ao cúmulo de imaginar que se trata de crime contra a ordem econômica pode, ainda, acionar o Ministério Público.

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Candango, calango e beija-flor

A festa já tem sambaNão poderia haver melhor definição para o brasiliense. Ou poderia. De qualquer maneira, o fato é que o Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor escolheu, esta semana, o samba que conduzirá seu desfile no Carnaval do Rio em 2010, com o sintético enredo “Brilhante ao sol do novo mundo, Brasília do sonho à realidade, a capital da esperança”.

Venceu a composição de Picolé da Beija-Flor, Serginho Sumaré, Samir Trindade, Serginho Aguiar, Dílson Marimba e André do Cavaco. Três outros sambas participaram da finalíssima, nenhum proveniente de Brasília, embora os dirigentes da escola sempre tenham acreditado (aham!) na possibilidade.

O secretário-adjunto de Cultura do Distrito Federal, presente à festa em Nilópolis, declarou que a Beija-Flor levará um grande desfile à Sapucaí. Já a escola só sabe de uma coisa: o Governo do Distrito Federal levará um caminhão de dinheiro a Nilópolis.

Dádivas o criador concedeu
Fez brotar num sonho divinal o mais precioso cristal
Lágrimas, fascinante foi a ira de Tupã
Diz a lenda que o mito Goyás nasceu
O brilho em Jaci vem do olhar
pra sempre refletido em suas águas
A força que fluiu desse amor é Paranoá, Paranoá
Óh! Deus sol em sua devoção
Ergueu-se no Egito fonte de inspiração
Pássaro sagrado voa no infinito azul
Abre as asas bordando o cerrado de norte a sul

Ah! Terra tão rica é o sertão
Rasga o coração da mata desbravador!
Finca a bandeira nesse chão
pra desabrochar a linda flor

No coração do brasil, o afã de quem viu um novo amanhã
Revolta, insurreições, coroas e brasões
batismo num clamor de liberdade!
Segue a missão a caravana em jornada
Enfim a natureza em sua essência revelada
firmando o desejo de realizar
A flor desabrochou nas mãos de jk
A miscigenação se fez raiz
com sangue e o suor deste país
Vem ver… A arte do mestre num traço um poema
Nossa capital vem ver …
Legião de artistas, caldeirão cultural!
Orgulho, patrimônio mundial

Sou candango, calango e beija-flor!
Traçando o destino ainda criança
a luz da alvorada anuncia!
Brasília capital da esperança

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Heresia imobiliária

Seriam os imóveis medíocres?Os jornais do Distrito Federal, por razões estritamente jornalísticas, não são muito chegados a questionar o miraculoso mercado de imóveis local. Por isso, tomei um susto ao ler no Correio Braziliense, como “palavra do especialista” em matéria sobre novas tendências de investimento, a atípica opinião de Roberto Piscitelli, economista, professor da Universidade de Brasília (UnB), e ex-presidente do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal:

Eu vejo isso (o avanço dos investimentos em imóveis nas cidades do DF e Entorno) com muito ceticismo. E há também um pouco de caráter de bolha nessa história. Muitas pessoas de classe média investiram, por exemplo, em Águas Claras, apostando no futuro, e hoje têm dificuldade de se desfazer dos imóveis e recuperar o dinheiro aplicado. Há uma certa histeria em torno desses lançamentos cheios de propaganda fora do Plano Piloto. O indivíduo precisa avaliar bem as opções e as perspectivas. Investir em imóveis é um hábito que o brasileiro adquiriu por causa dos 40 anos de inflação, mas não é algo comum em países mais desenvolvidos. O mercado de Brasília tem suas peculariedades, pode dar certo em alguns casos. Mas a aplicação em imóveis é, em geral, uma aplicação medíocre do ponto de vista da rentabilidade. Muita gente esquece que não é fácil administrar um imóvel e que a relação com os inquilinos costuma ser complicada. Além disso, muitos, ao invés de lucrar, fazem dívidas por conta da alucinação em torno desse tipo de investimento.

Imóvel, uma aplicação medíocre? Quem soltou esse louco?!

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Insetos me mordam

Foto de delegaciaPrimavera: época de intenso contato do brasiliense com a natureza. Um freguês desvia-se dos besouros à mesa do bar, uma moçoila destemida caça cigarras na sala de aula, um casal desdobra-se para proteger os pratos das moscas que tomam de assalto o apartamento. Mas nada – nada – se compara à interação do pobre estudante de direito com um inseto não-identificado, que, em plena prova de Contratos, realiza um vôo rasante, de ponto desconhecido ao lábio inferior do incauto examinando. Um instante para retomar o rumo e, então, vida que segue:

“A adulabilidade dão bem eveito andes de julbada por zendenza…”

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Segunda no parque

Carne em frenteDeve ser o tempo amolecendo o coração. Não só o coração, como também a picanha, a maminha, a alcatra, a costela e a lingüiçafraldinha. No início, o Parque da Cidade*, a exemplo da, ahm, cidade que o abriga, parece carecer de vida. É carro demais, bicicleta importada demais, iPod demais, para riso, burburinho e agitação de menos. Tudo muito certinho – e sem graça.

Mas, de repente, o sujeito vê a fumaça empesteando o ar, as garrafas pet se multiplicando sobre as mesas, as crianças correndo descontroladas, isopores, pratos plásticos, toalhas. O mundo gira, a lusitana roda, e a carne exala aquele cheirinho capaz de levantar defunto, parar o trânsito e arrepiar os cabelos. Até dos brasilienses.

Nada de pistas, ciclovia, kartódromo, lagos, quadras, pavilhões e brinquedos; aos 31 anos, o Parque da Cidade precisa é de mais churrasqueiras!

* Nome oficial: Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek. Nome original: Parque Recreativo Rogério Pithon Farias.

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Perspectivas

Tudo menos issoÉ como dizia Lao Tsé: “nada está tão ruim que não possa piorar”. De forma que todas as mazelas de Brasília, vistas do ângulo certo, ou errado, podem se resumir, na verdade, a não mais que pequenos inconvenientes superampliados por um bocado de má vontade. Que o diga Aldo Paviani, professor de geografia da UnB, para quem “em 20 anos, Brasília será uma São Paulo“. Uma São Paulo.

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Felicidade

Ainda chego láDepois de cumprir a parte mais rigorosa do ciclo da vida, o brasiliense costuma se dedicar a um período de obstinada reclusão, que raramente ultrapassa o momento da morte. Nessa fase, por razões estritamente filosóficas, é normal ocorrerem situações que, à superficialidade dos olhos comuns, podem parecer até extravagantes.

No meu prédio, habitado por inúmeras famílias plenamente realizadas, o isolamento é levado a sério. Encontros desnecessários são evitados pelo bem do equilíbrio universal – ainda que isso exija apressar o passo, de modo constrangedor, para pegar o elevador sozinho. Saudações vazias, como “oi”, “bom dia” e a desprezível “tudo bem?”, são ignoradas, numa busca devotada por significação no mundo. As crianças, como sementes do futuro, recebem orientação para não se exporem à chaga da integração social.

Viver, para essa gente, não tem nada de complicado. Mas sempre haverá quem diga que é impossível definir felicidade.

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