Aniversário é dia de soprar a velinha e fazer um pedido. Um amor. Um carro. Uma casa. Um emprego. Uma viagem. Uma bicicleta. Um livro. Um abraço. Um milagre. Mas neste aniversário, de presente, vou pedir menos Pinheirinhos, menos Danielas Prado, menos Duvaniers Paiva. Eu talvez não mereça, mas nosso país com certeza merece, e, convenhamos, já estou ficando velho demais para esperar.
3.5
Banho necessário
A fila de carros na BR-040 em qualquer fim de semana ensolarado anuncia a chegada ao Parque Nacional de Brasília. Mais conhecido como Água Mineral, o parque é a legítima praia da capital, e não só por permitir a rara união de sol e água. É ao redor e dentro das duas piscinas (Pedreira e Areal ou simplesmente “velha” e “nova”) que se encontra gente de verdade: moças passando todo tipo de óleo no corpo, crianças saltando na água, marmanjos tentando atrair os macacos-prego, namorados, famílias imensas, jovens senhoras. A cerca de 10 km do centro de Brasília, não podia estar mais distante da assepsia e prosperidade do resto da cidade, um quase literal oásis no deserto.
R$ 28,5 bilhões em ação
O próprio Governo do Distrito Federal anuncia: o orçamento local para 2012, de R$ 28,5 bilhões, é o maior da história. E, assim, comemora a garantia de “mais recursos para a saúde, a educação, a segurança pública e o transporte para melhorar a vida da população”. Sem desmerecer a sinceridade, quase eufórica, do comunicado, só pode ser falta de assessoria. Ou uma estratégia revolucionária. Governante dizer que o dinheiro vai dar para mais? E aquela história de que os recursos são limitados? E o papo de que não é por falta de vontade que não se faz isso ou aquilo (subentendendo-se que é por falta de dinheiro)? A população da capital, e do Entorno, vai ter de esperar o ano passar para ver o que esse megaorçamento esconde. Esconde, claro, é força de expressão.
Peças
O fim de semana começou com mais um capotamento no Eixo Monumental: um motorista tentou desviar de um carro parado no sinal vermelho e acabou de cabeça para baixo. A cena, visualmente impactante, não é exatamente rara na via mais conhecida da capital. Nos últimos anos, entre outros tantos prováveis casos incógnitos, alguns acidentes do gênero até ficaram famosos. Um adolescente pegou o carro do tio sem autorização e acabou botando um incauto parado no sinal para dar uma volta. Uma jovem – que estaria trocando um CD – decolou ao, involuntariamente, usar a traseira de outro veículo como rampa. Outra mulher perdeu a direção e quase invadiu a Câmara dos Deputados com o carro. Rolando.
Talvez seja a monotonia das seis faixas de rolamento que se estendem em linha reta por 16 quilômetros… Talvez seja o excesso de sinais… Talvez seja o piso escorregadio… Talvez…
Enorme batalhão
E ainda dizem que não há ninguém em Brasília neste início de 2012. Pois, além de mim, há pelo menos outras 1.1001.3001.500 pessoas que lotaram – ou deveriam ter lotado – o Teatro Nacional na noite desta quarta-feira. Esse é o número de pessoas que conseguiram convites para a apresentação gratuita de Paulinho da Viola na abertura do 1º Festival Internacional de Artes de Brasília (FestiArte). A maioria brigou por uma entrada na distribuição (des)organizada pelo FestiArte, que, segundo relatos na imprensa local, conseguiu entregar mais de 1 mil ingressos em menos de 15 minutos. Detalhe: às 10h já havia fila para a trabuzana marcada para as 14h.
Mas um nem tão pequeno grupo – 400 pessoas – não precisou nem se coçar. Recebeu os convites diretamente das secretarias de Cultura e Educação por serem “autoridades”, vips ou simplesmente por se agacharem até o chão.
Cinema maravilha
Um sábado no Espaço Itaú. A senhora de uns 60 anos sorri e me pergunta sem cerimônia: “Você veio assistir a Um conto chinês?” Eu, legítimo Chiang O’Lyi, respondo meio desconcertado que sim, e ela completa na hora: “É ma-ra-vi-lho-so!” O que dizer? Não, minha senhora, maravilhoso é recuperar um cinema decente e, de quebra, encontrar uma pessoa simpática e espontânea – ainda que meiototalmente sem noção. O filme mesmo é só excelente.
Correndo na real
É oficial: a Corrida de Reis de Brasília, em 2012, vai ser no dia… 28 de janeiro. A expectativa do governo local é de receber até 6 mil inscrições com a mudança de data – em 2011 foram 3,5 mil. É que, no Dia de Reis original, a competição candanga acabava relegada ao segundo plano da São Silvestre e de outras corridas país afora. Agora, espera-se não só maior participação na prova, como um impulso ao turismo com o afluxo de atletas de outros estadosoutras unidades da federação.
A confiança no sucesso da iniciativa é tamanha que o GDF já estuda mudar o desfile das escolas de samba para abril e iniciar as comemorações de fim de ano em outubro.
Milagre
Orçamentos milionários para festas insuspeitas já viraram uma tradição de Brasília. Aniversário da cidade, Sete de Setembro, fim de ano: tudo é motivo para gastar milhões em atrações, decoração, equipamentos, serviços. A novidade de 2011 é que o Tribunal de Contas do Distrito Federal resolveu suspender a licitação da Secretaria de Cultura para contratação de empresa responsável pela festa de réveillon. Para os conselheiros do TCDF, há indícios de “combinação de valores”, “sobrepreço” e “restrição da concorrência”, com preços até 200% superiores aos de mercado. Detalhe: o vencedor seria conhecido nesta quinta, dia 15, o que daria à empresa pouco mais de duas semanas para montar uma festa de R$ 4,45 milhões.
Um milagre para evitar outro milagre.
Dia do Evangélico
O Dia do Evangélico, comemorado pelos brasilienses nesta quarta-feira, 30 de novembro, é um feriado que sofre de múltipla personalidade. Primeiro, a data, embora instituída oficialmente pela lei distrital 893/95, é obedecida ao gosto do freguês. As repartições públicas federais, por exemplo, ignoram a folga solenemente – para a União, o Dia Nacional do Evangélico, instituído pela Lei 12.328/2010, não é feriado. Além disso, a comemoração dos evangélicos não é unanimidade nem entre os líderes… evangélicos, muitos dos quais chegam ao extremo de defender a separação entre estado e igreja! Tampouco a data é consensual: se em Brasília o dia é 30 de novembro, em Água Doce do Norte (ES) é 22 de julho, enquanto em Barreiras (BA) é 2 de agosto. Aquidauana (MS), com o segundo sábado de agosto, e São José da Tapera (AL), com o terceiro sábado de novembro, preferem as datas móveis. E há quem ache, simplesmente, que todo dia é dia do evangélico.
Pensando bem, se ainda não é, estamos quase lá.
Alô, alô
Já entusiasmado com a média de um carro para cada duas pessoas, o Distrito Federal comemorou na última semana outra grande marca, de acordo com levantamento da Anatel: nada mais nada menos que 2,02 linhas de celular por habitante. É, assim, a unidade da federação mais celularizada do país, muito acima da média nacional de 1,18. Como a frieza dos números costuma esconder uma quantidade considerável de crianças (presumidamente sem carteira de habilitação e possivelmente sem telefone), além de compensar extremos, não é absurdo imaginar moradores da capital donos, por exemplo, de dois carros e quatro linhas de celular. É, convenhamos, volante e botãotouch screen demais para qualquer ser humano. Diante do que só resta fazer o alerta: se liga!
Doce
É verdade: as letras brancas na placa verde agora me deixam nervoso. O que pensar ao me deparar com a inevitável mensagem? Às vezes, dá para desviar o olhar e conferir as distâncias para o Plano Piloto ou a Rodoferroviária, mas nem sempre a reação é tão rápida. Vou ali, concentrado nos outros carros e na sinalização, e de repente já estou passando de “divisa” para “Goiás” e de “Goiás” para “Distrito Federal”. Há quase cinco anos por aqui, talvez seja mais maduro admitir, ainda que sem assumir de coração. Um dia eu chego lar.
O bolo do feriado
O Dia do servidor Público deste ano provocou polêmica – e malabarismo – na administração pública federal. A dúvida, de última hora, como sói acontecer, era entre manter a comemoraçãoo feriado no 28 de outubro ou transferi-lo para um de vários outros dias, como 31 de outubro, 1º de novembrou ou, principalmente, 14 de novembro. Pois o Governo do Distrito Federal, vulgo GDF, foi muito mais eficiente: primeiro, manteve o feriado no dia 28; agora, define o dia 14 como “ponto facultativo”.
Os americanos adoram uma expressão popular que diz: “you can’t have the cake and eat it” (ou “you can´t eat the cake and have it”). Ao que o GDF responde com altivez: yes, we can!
Esforço de reportagem
Faz tempo que a Veja virou um pastiche de si mesma: em vez de reportagens, publica panfletos, não raro impondo a seus repórteres as mais incríveis rotinas do jornalismo de tese. Não deixa de ser uma surpresa, portanto, descobrir nesta semana a edição especial Veja Brasília oferecendo ao leitor autêntico esforço de reportagem. Só assim para cumprir o que a revista anuncia na capa: “120 razões para amar nossa capital”. E, tirante uma ou outra forçação de barra, como o destaque a um ponto de encontro de cachorros emergentes (?!?!), Veja cumpre a promessa. “Nossa capital” pode não ter 120 razões para ser amada. Mas numas 95, 96, até que dá para acreditar.
Jogando contra o patrimônio
Brasília comemora um crescimento de 30% no número de visitantes estrangeiros, em 2010, mas há uma turma de forasteiros que a cidade não quer ver pintada nem de ouro olímpico. Trata-se do Comitê do Patrimônio Mundial, da Unesco, que tenta sem sucesso definir uma data para visitar a capital brasileira e fazer um diagnóstico do que (não) tem sido feito para a preservação do título conquistado em 1990. Em julho, o comitê divulgou documento em que reitera antigos pedidos de informações e providências, alguns datados de 2001. Do controle da ocupação nas margens do Lago Paranoá à criação de uma “zona de amortecimento” para evitar espigões em torno do Plano Piloto, as recomendações dos técnicos da Unesco são solenemente ignoradas, ano após ano, numa tradição que desconhece correntes ideológicas ou partidárias. A regra é uma só: permanecer imóvel. Imóvel.
Cada um no seu (metro) quadrado
Quantas pessoas cabem em um metro quadrado? É essa pergunta que policiais, jornalistas, manifestantes e palpiteiros em geral tentam responder sempre que uma aglomeração toma as largas avenidas de Brasília. Na recente 2ª Marcha Contra a Corrupção, por exemplo, a multidão encolheu de mais de 20 mil para 11 mil em poucas horas. Mas nenhuma disparidade supera a registrada neste sábado, por ocasião de mais uma Zombie Walk, celebração performática, artística e escalafobética realizada em várias cidades do mundo no mês de outubro. Depois de calcular área, proporção ocupada, densidade e ritmo de deslocamento, o glorioso Jornal de Brasília cravou na mosca: havia 1,5 mil pessoas vestidas de zumbi na caminhada entre a Torre de TV e o Museu da República. Para especialistas, no entanto, o número é absurdo. Eles estimam em centenas de milhares, por baixo, os mortos-vivos da capital.