Um custo de vida

É vendavalO assunto “remuneração em Brasília” enseja, invariavelmente, perguntas sobre custo de vida. Uma das teses por trás das reivindicações salariais, aliás, costuma ser justamente essa: é muito caro viver por aqui. Quanto a isso, ressalvas à parte, não há dúvida. O problema é a ordem dos fatores. A renda elevada é necessária devido ao custo de vida alto ou o custo de vida alto é conseqüência da renda elevada? Talvez seja confiar demais em conhecimentos parcos de oferta, demanda, preço de equilíbrio e outros conceitos que costumam me causar dor de cabeça, mas ouso apostar na segunda hipótese. É claro que, quando se trata de dinheiro no bolso, lógica é o último item considerado. Assim, registre-se nos autos: viver em Brasília é caro pra caramba. E enfrentar essa dura realidade armado apenas com a maior renda per capita do país é um ato de heroísmo digno de nota. Cada um dê a sua.

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5.500

Tudo é relativoFalar de servidor público - e, especificamente, de sua remuneração - é um risco desnecessário. Para políticos, é mexer num vespeiro lotado de potenciais eleitores; para o cidadão comum, é comentar sobre um possível objetivo de vida, pessoal ou familiar. Um comentário solto no ar, preferencialmente malicioso, ainda passa, mas uma crítica mais corpulenta, e pública, não se recomenda a ninguém. A saravaida de contra-argumentos, nem todos razoáveis, é somente para aqueles de paciência vasta e estômago forte. É, portanto, sem abandonar a deliciosa conveniência da omissão, que reproduzo aqui uma frase, completamente descontextualizada, ouvida por uma amiga, de um representante de categoria de nível intermediário, à luz da recém-encerrada rodada de negociações salariais no âmbito do serviço público federal: “Cinco mil e quinhentos reais mal dão para viver.” E, por hoje, é só.

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Saudade da saudade

Continua lindoÀs vezes sinto saudade do Rio. Às vezes leio o Globo Online. A conjunção dos dois, no entanto, é coisa rara. Hoje, 29 de maio de 2008, às 11h20, a página inicial do jornal estampa na seção “Rio Hoje” as seguintes chamadas: “Seqüestro acaba em tiroteio em frente ao Canecão”, “MP abre inquérito para investigar falta de licitação das linhas de ônibus”, “Barra de ferro usada por motorista é encontrada”, “Patrulha leva tiros de fuzil na Linha Vermelha”, “Assaltantes atacam em ponto fixo em Niterói”. E a coroa, reluzente como ela só, vem na manchete do site: “PF prende ex-chefe da polícia de Garotinho e denuncia o ex-governador”.

p.s.: Desconcordo da opinião majoritária de que a violência é o maior problema do Rio. Descaso, desordem, desmando: essas, sim, são as pragas, para ficar apenas nos des, que obscurecem os encantos mil do coração do meu Brasil.

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Confusão urbana, suburbana e rural

Quer pagar quanto?Na quarta-feira passada, assisti, da primeira fila, coladinho ao palco, a uma apresentação de Paulo Moura e Armandinho. Para conseguir o lugar privilegiado, tive apenas de entrar no carro, descer o Eixo Monumental, estacionar diante da Catedral e caminhar poucos metros até o Conjunto Cultural da República. Lá, ao lado do iglu oficialmente conhecido como Museu da RepúblicaNacional, encontrava-se a modesta estrutura de cena, um cercadinho para convidados inexistentes e pouco mais. No início, distraído com versões inesperadas de “O morro não tem vez” e “Águas de março”, não consegui ir além da explicação fácil do feriado no dia seguinte. Um amigo entendeu melhor: não havia chamariz num show com dois músicos geniais e entrada franca. Faltava, em outras palavras, uma boa razão para sair de casa numa noite amena e apreciar música de alto nível ao ar livre. Eu, por sorte, não sou nada exigente.

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Andar, verbo intransitável

Sempre fechado para quem andaSegunda-feira, 12 de maio de 2008. Depois de breve confabulação, um grupo de colegas de trabalho resolver ir, de carro, almoçar no TST. O veículo é estacionado na rua, a uma linha reta da entrada do prédio, o que não impede um dos comensais de lamentar: “Agora é uma caminhada até lá.” Outro membro da comitiva mostra-se intrigado: entre o ponto em que estão e a entrada, vê-se apenas um estacionamento (de uso restrito) e uma grade verde, certamente interrompida por um portão para o acesso de pedestres. A distância não parece tão… Hein? Pedestres? No sentido de “que ou aquele que anda ou se encontra a pé”? Ah, então, a única opção é contornar toda a grade do estacionamento e entrar com os carros. É assim que a banda toca em Brasília.

Anda quem pode, dirige quem tem juízo.

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Viagens (II)

Outro tipo de viagemPassei boa parte destes 40 dias de sumiço viajando. Imagens transcendentais, sensações supernaturais. Acordar todo dia num lugar diferente. Rodar 3.500 quilômetros num carro verde-claro. Encarar sol e chuva, neve e deserto. Ficar de olhos arregalados diante de paisagens muito looooooooucas… E, de repente, estar de volta ao mundo real. O certo é o seguinte: viajar é uma arte e, como tal, virou até livro de filosofia barata. Assim, enquanto não chega minha próxima incursão artística, minhas baratas estão de volta.

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Desorientado

SAS Quadra 06 Bloco OO Ministério da Fazenda fica no bloco P da Esplanada, certo? Não. Lá fica a sede do Ministério da Fazenda. Os órgãos centrais do ministério ficam é no bloco O da quadra 3 do Setor de Autarquias Sul, certo? Não. Lá ficam os órgãos regionais. O Edifício Órgãos Centrais do ministério fica no SAS, sim, mas na quadra 6. Em qual bloco? No O, claro.

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Viagens

Ancara, Atenas ou Bratislava?Enquanto toca a carroça, tranqüilo, o motorista observa as indicações das placas: L2… W3… Estados Unidos da América… Como é que é?! Parece besteira, e provavelmente é, mas não consigo deixar de achar a cena inusitada. Quem quer que seja irresponsável pela sinalização da capital não se importou muito em incluir a informação “embaixada” nas placas. Afinal, se o sujeito vê o nome de um país pela frente, já sabe que só pode se referir a uma embaixada, n’est pa? França, embaixada da França; Portugal, embaixada de Portugal; China, embaixada da China. Bem, mil desculpas, mas, comigo, não funciona assim. Na verdade, ao ver as placas, não consigo evitar impressões absurdas, como a de que a Grécia fica ao lado da Turquia.

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Papo de boteco

O Piauàé aquiAonde um povo que compra jornal na padaria vai para tomar uma cerveja? À distribuidora de bebidas. Pode ser ali na 403 Sul, Distribuidora Piauí. Pode ser na 108 Norte, Distribuidora, ahm, 108. O que importa é se sentar numa cadeira de plástico, pedir uma Skol gelada e se preparar para os churrasquinhos e porções de carne de sol. Depois de um dia modorrento de trabalho ou de uma sessão de tortura com bolinhas, não existe lugar melhor para se estar. Ou melhor, existe, sim. Mas se chama bar. E fica a muitos quilômetros daqui.

Beberrão
(Aniceto do Império/Mulequinho)

Você já começa a beber
No domingo de manhã
Você já começa a beber
Parati com hortelã
Vá se deitar no divã
Com Manuel Bam Bam Bam
Pra contrariar sua irmã
Não estás com a cuca sã
Bebes e ficas bam bam bam
Vou lhe dar caldo de rã
Nem parece ser cristã
Não vais ao Maracanã
(O Flamengo joga hoje, mulher)
Vou lhe dar atroveran
Aguardente de romã

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Mudança na rotina

A!FonteDeOrgulhoA voz do sujeito no elevador tinha um tom inconfundível de orgulho. “Agora estou na A!BodyTech”, disse ao colega, sem esquecer a exclamação. Nada mais compreensível. Como não se orgulhar dos 6 mil metros quadrados, das 500 vagas de estacionamento, dos 180 funcionários e, principalmente, das 40 bicicletas indoor cycle?

A malhação, como relatado em inúmeros estudos socioantropológicos, é parte importantíssima da rotina do brasiliense. Funciona assim: o indivíduo trabalha duropara garantir a maior renda per capita do país, enche a pança num restaurante caro e queima as calorias na academia. A vida das mulheres, sempre mais complicada, inclui ainda uma etapa no salão de beleza - todo aquele suor, afinal, é um horror para a pele e os cabelos.

Longe das esteiras, das mesas chiques e, por óbvio, dos pentes e cremes, só me resta esperar por um salário melhor, para que minha vida comece a fazer sentido.

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Autos de infração

AlucinaçãoTalvez eu seja tão obcecado pelo trânsito quanto pela meteorologia. Talvez eu simplesmente não saiba ler. Diz o artigo 178 do Código Brasileiro de Trânsito: “Deixar o condutor, envolvido em acidente sem vítima, de adotar providências para remover o veículo do local, quando necessária tal medida para assegurar a segurança e a fluidez do trânsito: infração média.” Pois, em Brasília, qualquer colisão mínima resulta num congestionamento porque os motoristas, com apoio da autoridade policial, fazem questão de deixar os carros parados no meio da rua até a chegada da perícia. É um caso extravagante de infração-direito. Ou talvez, sem negação das hipóteses anteriores, eu tenha apenas perdido a razão. Com essas e outras, convenhamos, não seria surpresa.

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Sol e chuva

Céus!Perdoe-me pela volta ao tema insistente, mas é impossível não falar de clima quando Brasília, nos últimos dias, tem sido um extraordinário casamento de viúva. Ontem, numa distraída olhada pela janela do trabalho, quase chorei. O sol ainda intenso caía por trás das nuvens, transformando o céu num espetáculo de tons de azul, laranja e meios-termos de deixar o queixo caído e os lugares, comuns. Hoje, o fim da tarde foi marcado por um espetáculo diferente, de roteiro mais do que manjado: chuva forte, motoristas cautelosos, congestionamentos incompreensíveis. Quem sai na chuva é para se queimar, já dizia Matheus, o Vicente.

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Bandeiras arriadas

Rodada dupla, valendo 50 pontos!Depois não adianta reclamar da fama de cidade sem nada para se fazer. Uma das grandes diversões de Brasília encontra-se desaparecida há alguns meses - e ninguém toma providências. Sumiram as bandeiras que tremulavam no gramado próximo ao Congresso Nacional! Antes, toda passada pelo local era um game show. Faixas horizontais verdes e amarelas com um retângulo azul e uma estrela branca no canto superior esquerdo? Piauí. Duas faixas vermelhas e uma branca com um losango verde no centro e um brasão de armas? Santa Catarina. Agora, o retorno é uma pasmaceira. Com o Carnaval no pretérito e 2008 em pleno andamento, é mais do que hora de voltarem as bandeiras dos 26 estados brasileiros - e, claro, um distrito federal.

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Tropa de elite

Também vai pegar vocêAs fantasias do Bope não fizeram sucesso apenas no Carnaval do Rio. Em Brasília, na segunda-feira, o pessoal das operações especiais entrou em cena para enfrentar um inimigo quase tão perigoso quanto os traficantes das favelas cariocas: foliões que se divertiam no bloco Galinho de Brasília. Eu não vi, mas quem viu diz que a porrada comeu, o pau cantou e a jiripoca piou.

No relato do DF TV, “por volta das 20h, o bloco Galinho de Brasília já havia saído da 203 Sul. Mas duas mil pessoas continuavam na quadra, quando começou o confronto entre a polícia e alguns foliões. (…) Policiais atiraram balas de borracha e bombas de efeito moral. O público revidou jogando garrafas e pedras. Várias pessoas se feriram, inclusive crianças. Uma mulher saiu carregada. E um policial foi ferido no rosto.”

O governador José Roberto Arruda exigiu saber de quem foi a ordem para que o Bope reprimisse os foliões. Três oficiais foram afastados por 15 dias. O administrador de Brasília, Ricardo Pires, é acusado de ter requisitado a intervenção da polícia.

É bom ver que 2008 já está a pleno vapor.

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Um ano depois

Primeira velinhaEle nasceu em Shandong, oficialmente em 1932; mudou-se para Hong Kong na juventude; casou-se; e veio para o Rio de Janeiro, em 1968. Passou muito tempo trabalhando em outros lugares, longe da família, para ajudar a criar os dois filhos. Aposentou-se, finalmente, no início de 2006. Porém, depois de uma vida de sacrifícios, resolveu que não receberia retribuição. Na semana passada, partiu.

Você talvez conheça uma história parecida. Mas esta, do Sr. Chia, é só minha. Se tomo seu tempo com ela, é apenas para prestar uma pequena homenagem a um homem que, tendo passado a maior parte da vida no Brasil, nasceu e morreu chinês - e mostrou, em 74 anos, o que há de melhor nessa herança.

No ano passado, fomos juntos à China, e, embora meu chinês fosse tão ruim quanto o português dele, gosto de acreditar que, enfim, pude entendê-lo plenamente. Aquela era sua vida. Mas, por mim, meu irmão e minha mãe, ele nunca voltou. Um dia voltaremos juntos.

Há exatamente um ano, um Palio vermelho entrava em alta velocidade (62 km/h) na capital, carregando um cidadão com um estranho projeto na cabeça. De lá para cá, foram fortes emoções, muitas relatadas aqui. A maior, porém, por anteceder este barraco, acabou relegada a outro espaço. Hoje aproveito a efeméride para preencher a lacuna. De todo modo, balanço por balanço, neste primeiro ano aqui nada me balançou mais.

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