Novembro 13, 2009
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Momento histórico na última terça-feira: Shimon Peres, presidente de Israel, recebeu da Câmara Legislativa do Distrito Federal o título de cidadão honorário de Brasília. Extasiado com a comenda, o Prêmio Nobel da Paz de 1994 rasgou-se em doces palavras, que culminaram numa bombásticagrandiloqüente descrição da cidade: “Brasília é a capital do mundo novo porque aqui criam um lugar maravilhoso onde o homem está no centro de tudo”.
Embora não haja razão para se desconfiar da sinceridade do líder israelense, sua frase contrasta radicalmente com as impressões de outras personalidades que estiveram por aqui nestes quase 50 anos. E talvez o melhor exemplo diverso venha de Simone de Beauvoir, uma autêntica pioneira, que conheceu o Planalto Central já em 1960, ao lado de Sartre e ciceroneada pelo casal Jorge Amado e Zélia Gattai.
“À noite, enfim, chegamos a Brasília. Uma maquete em tamanho natural. Essa falta de humanidade salta logo aos olhos… Só se pode circular de automóvel… A rua, esse lugar de encontro entre moradores e turistas, lojas e residências, sempre imprevista – a rua, tão cativante em Chicago como no Rio, por vezes deserta e sonhadora, mas cujo silêncio é vivo. A rua, em Brasília, não existe nem existirá.”
“Guardo a impressão de ter visto nascer um monstro, cujo coração e pulmão funciona artificialmente, graças a processos de um custo mirabolante.”
Simone de Beauvoir, A força das coisas
Novembro 8, 2009
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O Correio Braziliense, em sua observação sempre científica do mercado imobiliário da capital, decreta na primeira página deste domingo: “Noroeste alavanca preços dos imóveis”. Para justificar a conclusão, o jornal ouviu uma turma absolutamente desinteressada nos efeitos de uma manchete desse quilate: os empresários do setor. Num show de isenção, os nobres analistas prevêem que, em cinco anos, o metro quadrado de um apartamento alcançará R$ 20 mil. Em outras palavras, ou números, um imóvel de 80 m² custará a bagatela de R$ 1.600.000,00. Já dá até para imaginar o comercial: que cobertura duplex em Ipanema, que nada, compre um aconchegante loft na área mais nobre de Brasília!
Se o repórter do Correio não conhece a lição mais rudimentar do jornalismo, os “especialistas” do mercado imobiliário, a se julgar pela fundamentação do prognóstico milionário, também parecem ter perdido a primeira aula do curso de investimentos: rentabilidade passada não é garantia de rendimento futuro.
Eu sei. Há (muita) gente que, mesmo acreditando em saci, mula-sem-cabeça e curupira, acha que bolha imobiliária não passa de delírio de lunático desinformado. Que o diga um vizinho que, há meses, mantém na varanda uma bela faixa amarela, na esperança de vender seu valorizado apartamento por um preço justo.
Meu conselho ao pobre cidadão: tenta botar um anúncio no Correio.
Outubro 28, 2009
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Nada de Rio de Janeiro, Salvador ou Fortaleza. Nem de Amazônia, Pantanal ou Cataratas. Nos próximos meses, o tema do estande brasileiro nas principais feiras de turismo do mundo será a cinqüentona Brasília, com destaque para sua arquitetura modernista. Marcado por curvas, o espaço invoca o estilo de Oscar Niemeyer, além de pôr em destaque imagens da Catedral e do Congresso Nacional, deixando lugares insossos como Fernando de Noronha e Bonito em segundo plano. “Não poderíamos deixar passar esta oportunidade de divulgar Brasília mundialmente, aproveitando o aniversário de 50 anos da capital do país”, explicou Jeanine Pires, presidente da Embratur.
O novo estande estreará no World Travel Market, de 9 a 12 de novembro, em Londres, e depois viajará para Buenos Aires, Barcelona, Lisboa, Madri e Berlim. Um itinerário quase tão interessante quanto Brasília.
Outubro 24, 2009
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Revoltados com as espúrias acusações de que manteriam, por combinação, o preço da gasolina a R$ 2,67, os donos de postos de Brasília decidiram mostrar nas bombas a lisura do negócio. Desde esta semana, o combustível custa R$ 2,74, em todos os estabelecimentos. Num esforço comovente, os probos comerciantes ignoram as diferenças de custos entre si, apenas para proporcionar ao freguês a conveniência de saber com antecedência quanto vai gastar para encher o tanque.
Por isso, e só por isso, os 38 postos de Brasília pesquisados pela Agência Nacional de Petróleo na semana de 18 a 24 de outubro (pré-aumento) registraram um preço médio de R$ 2,68, com variação de apenas 5 centavos entre o menor e o maior, enquanto os 60 postos visitados na distante Goiânia tiveram um preço médio de R$ 2,57 e variação de 14 centavos. Detalhe: o valor médio cobrado pelas distribuidoras nas duas cidades é praticamente igual.
Aos paranóicos que, a despeito das evidências, continuam achando que existe um cartel em operação por aqui resta procurar os órgãos competentes: ANP (0800-970-0267), Secretaria de Defesa Econômica (SDE) e Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Quem chegar ao cúmulo de imaginar que se trata de crime contra a ordem econômica pode, ainda, acionar o Ministério Público.
Outubro 22, 2009
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Não poderia haver melhor definição para o brasiliense. Ou poderia. De qualquer maneira, o fato é que o Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor escolheu, esta semana, o samba que conduzirá seu desfile no Carnaval do Rio em 2010, com o sintético enredo “Brilhante ao sol do novo mundo, Brasília do sonho à realidade, a capital da esperança”.
Venceu a composição de Picolé da Beija-Flor, Serginho Sumaré, Samir Trindade, Serginho Aguiar, Dílson Marimba e André do Cavaco. Três outros sambas participaram da finalíssima, nenhum proveniente de Brasília, embora os dirigentes da escola sempre tenham acreditado (aham!) na possibilidade.
O secretário-adjunto de Cultura do Distrito Federal, presente à festa em Nilópolis, declarou que a Beija-Flor levará um grande desfile à Sapucaí. Já a escola só sabe de uma coisa: o Governo do Distrito Federal levará um caminhão de dinheiro a Nilópolis.
Dádivas o criador concedeu
Fez brotar num sonho divinal o mais precioso cristal
Lágrimas, fascinante foi a ira de Tupã
Diz a lenda que o mito Goyás nasceu
O brilho em Jaci vem do olhar
pra sempre refletido em suas águas
A força que fluiu desse amor é Paranoá, Paranoá
Óh! Deus sol em sua devoção
Ergueu-se no Egito fonte de inspiração
Pássaro sagrado voa no infinito azul
Abre as asas bordando o cerrado de norte a sul
Ah! Terra tão rica é o sertão
Rasga o coração da mata desbravador!
Finca a bandeira nesse chão
pra desabrochar a linda flor
No coração do brasil, o afã de quem viu um novo amanhã
Revolta, insurreições, coroas e brasões
batismo num clamor de liberdade!
Segue a missão a caravana em jornada
Enfim a natureza em sua essência revelada
firmando o desejo de realizar
A flor desabrochou nas mãos de jk
A miscigenação se fez raiz
com sangue e o suor deste país
Vem ver… A arte do mestre num traço um poema
Nossa capital vem ver …
Legião de artistas, caldeirão cultural!
Orgulho, patrimônio mundial
Sou candango, calango e beija-flor!
Traçando o destino ainda criança
a luz da alvorada anuncia!
Brasília capital da esperança
Outubro 21, 2009
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Os jornais do Distrito Federal, por razões estritamente jornalísticas, não são muito chegados a questionar o miraculoso mercado de imóveis local. Por isso, tomei um susto ao ler no Correio Braziliense, como “palavra do especialista” em matéria sobre novas tendências de investimento, a atípica opinião de Roberto Piscitelli, economista, professor da Universidade de Brasília (UnB), e ex-presidente do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal:
Eu vejo isso (o avanço dos investimentos em imóveis nas cidades do DF e Entorno) com muito ceticismo. E há também um pouco de caráter de bolha nessa história. Muitas pessoas de classe média investiram, por exemplo, em Águas Claras, apostando no futuro, e hoje têm dificuldade de se desfazer dos imóveis e recuperar o dinheiro aplicado. Há uma certa histeria em torno desses lançamentos cheios de propaganda fora do Plano Piloto. O indivíduo precisa avaliar bem as opções e as perspectivas. Investir em imóveis é um hábito que o brasileiro adquiriu por causa dos 40 anos de inflação, mas não é algo comum em países mais desenvolvidos. O mercado de Brasília tem suas peculariedades, pode dar certo em alguns casos. Mas a aplicação em imóveis é, em geral, uma aplicação medíocre do ponto de vista da rentabilidade. Muita gente esquece que não é fácil administrar um imóvel e que a relação com os inquilinos costuma ser complicada. Além disso, muitos, ao invés de lucrar, fazem dívidas por conta da alucinação em torno desse tipo de investimento.
Imóvel, uma aplicação medíocre? Quem soltou esse louco?!
Outubro 20, 2009
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Primavera: época de intenso contato do brasiliense com a natureza. Um freguês desvia-se dos besouros à mesa do bar, uma moçoila destemida caça cigarras na sala de aula, um casal desdobra-se para proteger os pratos das moscas que tomam de assalto o apartamento. Mas nada – nada – se compara à interação do pobre estudante de direito com um inseto não-identificado, que, em plena prova de Contratos, realiza um vôo rasante, de ponto desconhecido ao lábio inferior do incauto examinando. Um instante para retomar o rumo e, então, vida que segue:
“A adulabilidade dão bem eveito andes de julbada por zendenza…”
Outubro 13, 2009
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Deve ser o tempo amolecendo o coração. Não só o coração, como também a picanha, a maminha, a alcatra, a costela e a lingüiçafraldinha. No início, o Parque da Cidade*, a exemplo da, ahm, cidade que o abriga, parece carecer de vida. É carro demais, bicicleta importada demais, iPod demais, para riso, burburinho e agitação de menos. Tudo muito certinho – e sem graça.
Mas, de repente, o sujeito vê a fumaça empesteando o ar, as garrafas pet se multiplicando sobre as mesas, as crianças correndo descontroladas, isopores, pratos plásticos, toalhas. O mundo gira, a lusitana roda, e a carne exala aquele cheirinho capaz de levantar defunto, parar o trânsito e arrepiar os cabelos. Até dos brasilienses.
Nada de pistas, ciclovia, kartódromo, lagos, quadras, pavilhões e brinquedos; aos 31 anos, o Parque da Cidade precisa é de mais churrasqueiras!
* Nome oficial: Parque da Cidade Sarah Kubitschek. Nome original: Parque Recreativo Rogério Pithon Farias.
Outubro 8, 2009
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É como dizia Lao Tsé: “nada está tão ruim que não possa piorar”. De forma que todas as mazelas de Brasília, vistas do ângulo certo, ou errado, podem se resumir, na verdade, a não mais que pequenos inconvenientes superampliados por um bocado de má vontade. Que o diga Aldo Paviani, professor de geografia da UnB, para quem “em 20 anos, Brasília será uma São Paulo“. Uma São Paulo.
Outubro 4, 2009
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Depois de cumprir a parte mais rigorosa do ciclo da vida, o brasiliense costuma se dedicar a um período de obstinada reclusão, que raramente ultrapassa o momento da morte. Nessa fase, por razões estritamente filosóficas, é normal ocorrerem situações que, à superficialidade dos olhos comuns, podem parecer até extravagantes.
No meu prédio, habitado por inúmeras famílias plenamente realizadas, o isolamento é levado a sério. Encontros desnecessários são evitados pelo bem do equilíbrio universal – ainda que isso exija apressar o passo, de modo constrangedor, para pegar o elevador sozinho. Saudações vazias, como “oi”, “bom dia” e a desprezível “tudo bem?”, são ignoradas, numa busca devotada por significação no mundo. As crianças, como sementes do futuro, recebem orientação para não se exporem à chaga da integração social.
Viver, para essa gente, não tem nada de complicado. Mas sempre haverá quem diga que é impossível definir felicidade.
Setembro 30, 2009
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Falta um senso mais apurado de marketing a Brasília. Um belo exemplo é a grande manchete desta terça na capital: “Brasília registra dia mais quente do ano”. Embora verídica, a afirmação é praticamente um apelo ao desdém dos moradores de outras cidades; enquanto os candangos espantam-se com os meros 31,8 graus de hoje, os cariocas já curtiram 39,3, em março, e os cuiabanos deliciaram-se com 40,1, duas semanas atrás.
O sujeito de Palmas, cozido pelos dois dias de 39 graus só neste mês, lê a novidade bombástica de Brasília e reage, não sem razão, com absoluto desprezo. Trintaeumvírgulaoito? Frio polar.
Não seria o caso de pôr a numeralha de lado e destacar o que a cidade possui de realmente único? Título: “Brasília terá mais cinco dias de índice UV extremo”. Subtítulo: “Exposição à radiação pode provocar queimaduras, pintas, câncer de pele e lesões nos olhos”.
Todo lugar tem suas peculiaridades. O segredo é saber vendê-las.
Setembro 27, 2009
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Em Brasília, sete horas e vinte minutos. A padaria está fechada. A banca de jornal também.
Setembro 20, 2009
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Enquanto Rio de Janeiro, Chicago, Madri e Tóquio roem as unhas, à espera do anúncio, em 2 de outubro, da sede das Olimpíadas de 2016, Brasília já curte nada menos que sua 3ª edição do evento. Desde o último dia 12, representantes de 30 paísesregiões administrativas, entre as quais a caçula Vicente Pires (criada em maio deste ano), disputam medalhas nas seis modalidades das Olimpíadas da Cidade.
A versão candanga dos Jogos Olímpicos tem como objetivos incentivar a prática esportiva, identificar talentos locais e promover a integração entre as regiões administrativas.
Outra missão, não-declarada, é descobrir a que cidade se refere o nome da competição.
Detalhes à parte, Brasília (2007) e Taguatinga (2008) buscam, até o dia 27, o bicampeonato, enquanto as outras RAs tentam o primeiro título olímpico. Que vença a melhor!
Setembro 18, 2009
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Para o brasiliense, ainda na pré-adolescência, revelam-se limpidamente as etapas fundamentais do ciclo da vida: nascer, crescer, passar num concurso público, financiar um apartamento no Plano, comprar um Tucson e se aposentar. Reproduzir é uma possibilidade; morrer, uma contingência. Perdido no ponto médio, devoto do aluguel e fidelíssimo a um destemido Palio 2006, nunca vi com tanta simpatia a idéia de aumentar a família…
Setembro 15, 2009
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A aparição do cidadão de bicicleta no trabalho ou na faculdade suscita, vez por outra, a conversa mole: “Eu (ou você) também podia vir de bicicleta, hein!” O problema é que, invariavelmente, podia, mas não podeu. Escassez de ciclovias, trânsito intenso, suor, risco de furto, bico-de-papagaio, conjunção astral, esgotamento do modelo neoliberal: desculpas para a inércia não faltam. Nem desculpas, nem veículos automotores, que, até julho, somavam um milhão, cento e três mil, quinhentos e quinze registros no Distrito Federal. As bicicletas, por outro lado, contam-se nos dedos, às vezes de uma mão – com cacófato e tudo.
E, mesmo assim, outro dia, pedalando rumo à UnB, fui surpreendido pelo motorista de um ônibus, que, ao me ver numa agulha, parou no meio da via e piscou o farol para que eu atravessasse em segurança. Fiquei tão animado, tão esperançoso e tão otimista, que achei que, logo em seguida, seria colhido por um carro em alta velocidade, na contramão, pilotado por um bêbado atrasado para uma urgente compra na padaria da esquina de casa.
Ter chegado incólume à aula não deixa de ser um alento.