Pedala, candango!

Desce redondoA aparição do cidadão de bicicleta no trabalho ou na faculdade suscita, vez por outra, a conversa mole: “Eu (ou você) também podia vir de bicicleta, hein!” O problema é que, invariavelmente, podia, mas não podeu. Escassez de ciclovias, trânsito intenso, suor, risco de furto, bico-de-papagaio, conjunção astral, esgotamento do modelo neoliberal: desculpas para a inércia não faltam. Nem desculpas, nem veículos automotores, que, até julho, somavam um milhão, cento e três mil, quinhentos e quinze registros no Distrito Federal. As bicicletas, por outro lado, contam-se nos dedos, às vezes de uma mão – com cacófato e tudo.

E, mesmo assim, outro dia, pedalando rumo à UnB, fui surpreendido pelo motorista de um ônibus, que, ao me ver numa agulha, parou no meio da via e piscou o farol para que eu atravessasse em segurança. Fiquei tão animado, tão esperançoso e tão otimista, que achei que, logo em seguida, seria colhido por um carro em alta velocidade, na contramão, pilotado por um bêbado atrasado para uma urgente compra na padaria da esquina de casa.

Ter chegado incólume à aula não deixa de ser um alento.

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Novos temas

RótuloUma cidade que tem uma lista (extra)oficial de temas para discussão entre parentes, amigos, colegas de trabalho e desconhecidos em geral não pode negar sua natureza provinciana. Em Brasília, conversa de bar, de elevador, de esquinabanca de jornal, naturalmente quando se conversa, é sobre seca (e chuva), preço de imóvel, concurso público ou trânsito. Aqui mesmo, estes são assuntos recorrentes, o que me causa certa preocupação. Por isso, inicio agora uma tentativa de alteração de rumo, com novos e emocionantes temas a serem maltratados.

Para começar, proponho um debate sobre o ceticismo epistemológico, que nega a capacidade do espiríto humano de penetrar as aparências para alcançar a realidade (ordenada) e descobrir a verdade.

E, então, estaríamos condenados à insuportável aceitação de que vivemos num mundo caótico?

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Cataclismo

Falta poucoViajei há cerca de dez dias no meio de um inesperado período de chuva e ao voltar, hoje, fui recebido por um dia inteiro de aguaceiros intermitentes. Considerando-se que o último borrisco, antes disso, ocorreu em 31 de maio, conclui-se que a seca deste ano durou menos de três meses. Ou simplesmente que, se o fim do mundo ainda não chegou, deve estar bem próximo.

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Minhocão

Meia UnBAo saber da minha admissão na UnB, uma querida amiga não perdoou: “é sinal de que está virando brasiliense”. A singela declaração transmitia, em iguais partes, uma alegria natural pela realização e um deboche de quem conhece a relação conflituosa que mantenho com a cidade. Inaugurada em 1962, a UnB, como se sabe, ou não, é um símbolo de Brasília. Ser aluno da única universidade pública da capital, portanto, encerra uma diversidade de significados – a maioria dos quais não compreendo bem. Garanto, contudo, que esse, o de estar “virando brasiliense”, não corresponde à verdade no meu caso específico. Não mesmo, véi.

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Momentos de tensão (II)

Shazam!Em tempos de descartáveis e de alta definição, é raro uma TV de tubo dominar a estante da sala por muitos anos, exibindo inabalável saúde eletrônica. Pois esse era, até poucos dias atrás, o caso da minha destemida LG “Cinemaster” (de 110 volts). Era. Uma conjunção astral entre mudança e lerdeza transformou o aniversário de sete anos do aparelho numa fedorenta sessão de fritura – e despedida. Agora, à noite, enquanto os vizinhos assistem à péssima programação da televisão brasileira, lá em casa se admira a imobilidade da imensa caixa de plástico, vidro e metais altamente tóxicos.

Pensando bem, não faz tanta diferença assim.

p.s.: A maneira mais ecológica de se descartar um eletrônico é entregá-lo a um “posto autorizado credenciado” do fabricante. O difícil, no caso da LG, é conseguir que a empresa lhe indique um.

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Silogismo

Item anuladoQuestão filosófica: se Brasília tem pessoas normais (Plebe Rude, 1985), se todo mundo é uma ilha (Engenheiros do Hawaii, 1986, 1987), se Brasília é uma ilha (Paralamas do Sucesso, 1995), todas as pessoas normais de Brasília são uma ilha? Para sorte do leitor, não é preciso queimar a mufa, nem mergulhar na polêmica ancestral acerca da definição de Brasília. Afinal de contas, pela lógica, uma premissa falsa leva necessariamente a uma conclusão falsa.

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De mudança

CarretoÉ o fim das filas no (único) banheiro de casa. Adeus, diálogos insólitos com locadores excêntricos. Nada mais de atualizações não-solicitadas – e constrangedoras – sobre as vidas dos vizinhos. Escadas, só de alumínio, ou por exercício. Bem-vinda, garagem fechada, no sentido estrito de fechada. Estou me mudando e, sem desmerecer por completo a morada que fica para trás, não há como não prever dias melhores. Nenhuma conveniência, porém, se compara a poder descer de manhã e comprar o jornal numa banca. De tijolo, é verdade, mas uma banca.

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O samba abunda (II)

Do Porto Seco para a SapucaíOs foliões brasilienses estão em polvorosa. A cidade não apenas será enredo da hendecacampeã Beija-Flor no Carnaval do Rio em 2010, como também poderá entrar com o samba que conduzirá a escola na avenida (aham!). No último domingo, grandes nomes da azul-e-branco de Nilópolis passaram pela quadra da gloriosa Aruc, 29 vezes vencedora no Distrito Federal (portanto, como todo mundo sabe, eneaicosacampeã), e escolheram quatro criações de compositores locais, que enfrentarão as pratas da casa em agosto. Destaque para o samba de Cláudio Vagareza, Lollo e Binho da Paz, que em 29 versos não cita uma única vez os nomes de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Original.

Reluz num sonho encantado
Vai… meu Beija-Flor aventureiro
Anunciar a terra prometida
Visão divinal da flor do cerrado brasileiro
Em lágrimas que abraçam o luar
Refletiu amor para a eternidade
E emergiu na ancestral herança de Aketaton
Nas asas sagradas de Íbis, Egito foi a sua inspiração
Desbravadores ao encontrar esse chão
Rasgando o seu coração, erguem bandeiras
Sopram os ventos da liberdade
Dos revoltosos, as insurreições

Raiou, o Deus sol guiou
A missão alcançou no centro-oeste chegou
Onde a natureza emoldurava a imensidão
Palmilhou o solo da nação

JK, a luz da modernidade
Esperança e prosperidade
Candango suor da criação
Desperta gigante, capital da esperança
Do papel, a cruz se lança como sonho a voar
E hoje brilha cada alvorada
Ao romper da madrugada resplandece o seu valor
Patrimônio da humanidade
Realidade na família Beija-Flor

Um canto de amor ecoa
Brasília é arte e faz encantar
O povo da baixada te abraça
Orgulhoso a te exaltar

* O enredo desinteressado da Beija-Flor para 2010 é “Brilhante ao sol do novo mundo, Brasília do sonho à realidade, a capital da esperança”.

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Um custo de vida (redux)

Relativismo financeiroTemas populares merecem ser revisitados e, na breve existência destas Dores Capitais, nenhum outro se destacou tanto. O povo conectado quer saber: quanto custa morar em Brasília? A resposta, evidentemente, depende do nível socioeconômico, do estilo de vida, do momento e, sem dúvida, do relativismo axiológico. A grande verdade, no entanto, é que custa caro. É fato que nem sempre tão caro quanto a elite mais perdulária do país gostaria…

Alimentação
Brasília tem opções para todos os gostos e bolsos. Como em qualquer cidade, os preços tendem a ser mais altos nas regiões mais nobres e mais baixos nas mais modestas, mas os restaurantes dos órgãos públicos garantem uma alternativa de preço reduzido (em torno de R$ 10, o quilo) até no Plano Piloto. Menus degustação à bagatela de R$ 165, pratos feitos a R$ 5 e bufês insuspeitos a R$ 11,90 (com churrasco!) completam a variedade à disposição do morador da capital. Os supermercados praticam preços razoáveis, talvez ligeiramente acima da média, devido à localização da cidade. Suicídio financeiro mesmo é fazer as compras do mês nos “mercados de bairro”.

Habitação
A vilã mor do mitológico custo de vida brasiliense é a moradia. Não pode ser normal pagar quase R$ 2 mil num apartamento de dois quartos no Plano, mais de R$ 1 mil numa quitinete e R$ 600 numa moradia nada luxuosa em cidades-satéliteregiões administrativas mais distantes da zona central. É uma mistura de bolha de sabão com bola de neve que, para alguns, tem os dias contados e, para outros, garante uma prosperidade sem esforço. Enquanto o apocalipse não chega, o jeito é coçar o bolso, procurar bem e pechinchar – não que adiante muita coisa.

Transporte
A gasolina de Brasília, a tabelados R$ 2,67, é uma das mais caras do país. Já o bilhete do metrô, a R$ 3… bem, esse é um dos mais caros do país. E a passagem de ônibus, de R$ 2 a R$ 3, é apenas… ahn, uma das mais caras do país. O táxi, sim, também é um dos mais caros do país. Contudo, com bandeirada a R$ 3,30 e quilômetro rodado a R$ 1,80/2,18, pelo menos fica abaixo de São Paulo, onde as tarifas dos carros de praça são de R$ 3,50 e R$ 2,10/2,73, respectivamente. Viva.

Saúde
Não se aplica totalmente. Aqui vale a regra perversa do resto do país. Quem consegue pagar, direta ou indiretamente, um plano de saúde vive com relativa tranqüilidade. O resto que se vire na rede pública, que, a se julgar pela avaliação dos cidadãos, não difere do padrão de (falta de) qualidade brasileiro. A novidade é que, talvez se sentindo excluídos, em meio à maior renda per capita do país, especialistas como pediatras e oftalmologistas começam a se amotinar contra os planos de saúde. As farmácias, na outra ponta, capricham nos preços.

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Cada um no seu cubo

Hmm... deixe-me ver...Enquanto não garante o jogo de abertura da Copa de 2014, Brasília toca a vida recebendo outros grandes eventos, com o devido destaque na imprensa local. Neste fim de semana, por exemplo, acontece o Brasília Open 2009. Trata-se de nada mais nada menos que o 4° Campeonato Brasileiro de Cubo Mágico (Rubik’s Cube). A competição é reconhecida pela Associação Mundial de Cubo Mágico e vale pontos para os rankings oficiais. Os “atletas” disputam o título em modalidades básicas e outras como Multi BLD (múltiplos cubos com os olhos vendados), Cubo 7×7x7 (cubos de sete colunas e sete linhas) e Megaminx (dodecaedro).

* Reavivando o gasto debate, o Brasília Open 2009 acontece na Universidade Católica de Brasília (UCB), situada em Taguatinga.

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Cartel general

Mãos ao alto!Nada como viver num lugar organizado. Em Brasília, antes de sair de casa, o motorista dono de um carro com tanque de 50 litros (vazio) já sabe que vai gastar R$ 133,50 para enchê-lo de gasolina. Quem propicia a conveniência são os postos de combustível. Pesquisar preços, por aqui, é um convite a dormir no volante: R$ 2,67, R$ 2,67, R$ 2,67, R$ 2,67…

Levantamento realizado pela Agência Nacional de Petróleo de 5 a 11 de julho, em 90 postos de Brasília, mostra uma diferença abissal entre os preços médio e máximo da gasolina: R$ 2,63 e, surpresa!, R$ 2,67. Em Belo Horizonte, os valores correspondentes ficaram em R$ 2,28 e R$ 2,56; em São Paulo, R$ 2,33 e R$ 2,69; em Porto Alegre, R$ 2,48 e R$ 2,59.

Vejamos, apenas por curiosidade, o art. 4º da Lei 8.137/90 e o art. 21 da Lei 8.884/94:

Art. 4° Constitui crime contra a ordem econômica:

(…)

II – formar acordo, convênio, ajuste ou aliança entre ofertantes, visando:

a) à fixação artificial de preços ou quantidades vendidas ou produzidas;

Art. 21. As seguintes condutas, além de outras, na medida em que configurem hipótese prevista no art. 20 e seus incisos, caracterizam infração da ordem econômica;

I – fixar ou praticar, em acordo com concorrente, sob qualquer forma, preços e condições de venda de bens ou de prestação de serviços;

O Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis Automotivos e de Lubrificantes do Distrito Federal (Sinpetro) costuma afirmar publicamente que tudo não passa de coincidência. Os motoristas de maior renda per capita do país preferem seguir emburrados e calados.

O suposto problema é que a suposta responsabilidade por supostamente investigar suposto esquema de suposto acordo para supostamente fixar preços é do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), com sede no longínquo Setor Comercial Norte, Quadra 2, Projeção C, na remota localidade de… Brasília.

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Oi e tchau

Nada de Oi para a música...Durou pouco a existência do Espaço Brasil Telecom. A casa começou bem, com Fernanda Takai apresentando seu excelente remake de Nara Leão em março do ano passado, e acabou melancolicamente, numa morte anunciada, “festejada” pela banda pernambucana Mombojó em 25 de junho último. Das 197 atrações que passaram por lá, só assisti a uma, Teresa Cristina, mas o resto da lista – nacional e internacional – é igualmente respeitável.

Com o desinteresse da Oi (que comprou a Brasil Telecom), os pequenos espaços para shows da cidade voltam a ser dominados pelas empresas públicas. Para quem ainda acredita que nada acontece em Brasília, vale a pena dar sempre uma olhada na programação da Caixa Cultural, onde já conferi Época de Ouro e Nei Lopes, e do CCBB, onde vi o mesmo Jorge Drexler que andou passeando pelos mais badalados palcos do Canecão (RJ) e Bourbon Street (SP) no mês passado.

Mas o Espaço Brasil Telecom não parte como unanimidade. Muita gente criticava a localização, num hotel de luxo distante do centro e sem acesso por transporte público, e a dificuldade para a compra de ingressos, somente no próprio local ou por um site especializado. De certa forma, portanto, a casa era um retrato de Brasília: excludente, isolada e descolada da realidade.

Lá, pelo menos, ouvia-se boa música.

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Teste de resistência

Quem? Quem?Momento diário: perdi um pedaço de gruyère. Revirei a geladeira, conferi no cupom fiscal, culpei injustamente a caixa do supermercado. Então me veio uma luz. Peguei a chave do carro, desci as escadas correndo, abri a porta, enfiei a mão embaixo do banco do motorista (eu) e lá estava. Sinceramente, não esperava encontrá-lo tão bem, depois de (o queijo) enfrentar o calor infernal de Brasília trancado num automóvel. E o friozinho, à noite, também.

Por oito dias.

Não ando muito bem.

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Outras paixões

Os carros sumiramComo já se sabe desde o Ipiranga, o brasileiro é apaixonado por carro, e o brasiliense, aparentemente, mais do que os outros. Porém, contudo, entretanto, todavia, nem só de automóvel vive o coração do candango, como às vezes se dá a entender. Eventos neste último domingo de junho mostraram que o brasiliense também é apaixonado por moto (1º Passeio Motociclístico do Corpo de Bombeiros), por bicicleta (7º Passeio Ciclístico Rodas da Paz) e pelos próprios pés (Circuito das Estações – Etapa Inverno). Menos mal.

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Kafka e Conrad

Brasília é um barato, e eu...Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

Uma das delícias de voltar para casa é ouvir a pergunta de amigos e parentes: “E aí, tá gostando?” Sim, não, quase sempre mais ou menos; o que importa mesmo é a impressão de que a mudança foi outro dia. Porque cedo ou tarde a curiosidade e a falta de assunto são derrotadas pela crueldade dos fatos. Durmo um expatriado transitório e acordo um candango adotivo. O horror! O horror!

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