Archive for junho, 2007

Domingo no parque

Placas não faltamQuem anda pelo Parque da Cidade* não consegue imaginar o encontro, há 21 anos, da Monica (de moto) com o Eduardo (de camelo). Em pleno domingo de sol escaldante, o movimento na área de 42 hectares é tímido, essencialmente concentrado nos restaurantes e churrasqueiras públicas. Nada que lembre “o principal recanto de lazer [de Brasília] em todos os dias da semana”, ou que faça jus aos “vários tipos de divertimento tanto para os adultos quanto para as crianças”, como apresenta a página da Secretaria de Turismo do Distrito Federal. Não que o lugar careça de atrações. Pista para pedestres e ciclistas, kartódromo, lagos artificiais, parque de diversão, quadras de esportes, pavilhão de feiras, playground: está tudo lá. Falta mesmo é a vida de cantinhos muito mais modestos e, ainda assim, muito mais festivos. E apropriados a encontros furtivos entre pessoas que se completam que nem feijão com arroz.

* O nome oficial é Parque da Cidade Sarah Kubitschek.

Comments (1) »

Consumo noturno

MiragemAqui em Brasília, quando quero comprar um jornal ou revista, corro logo para o supermercado. Explico. Tenho o mau hábito de ler durante as refeições. Jantar sozinho e sem uma leitura digestiva é, para mim, especialmente aborrecido. Daí que, às vezes, saio numa desarrazoada busca pelo Sudoeste. Depois das sete, porém, comprar uma revista – ou qualquer outra coisa – é missão quase impossível. Banca de jornal não existe. As assim chamadas revistarias já fecharam as portas. Resta, deste modo, uma providencial incursão ao shopping ou ao supermercado.

A não ser que se deseje ler o Correio Braziliense. Esse é vendido na padaria.

Comments (5) »

Noites de Gaza

A outraGaza é uma festa. Cadeira de plástico, cerveja barata, batata frita. Engravatados e embermudados. Acarajé, amendoim e churrasquinho. Banheiro com vista para as mesas. Mesa com vista para as figuras que passam. O lugar, assentado na CLN 408, é mais conhecido por bares de nomes paisagísticos, populares entre a juventude da UnB: Pôr-do-Sol, Vale da Lua… Virou Faixa de Gaza depois que um grupo de recém-chegados, numa de suas primeiras incursões, viu-se transformado em coadjuvante de um espetáculo de cadeiras e garrafas voadoras. Entre mortos e feridos, salvou-se o hábito de passar por lá de vez em quando, para sentar numa cadeira de plástico, entornar uma cerveja nem sempre gelada, saborear um prato de batata frita e, como sempre, discutir os rumos da política externa brasileira. Sem o fardo de disputas históricas, é uma Gaza fraternal e aconchegante, nos limites de seu despojamento. Se é verdade que, nos últimos tempos, perdeu espaço para as promoções de pizza do Brás, não significa que perdeu também a aura de destino certo. Para as horas mais duvidosas.

Comments (1) »

Silêncio ensurdecedor

Vai para o trono ou não vai?A placa saúda os motoristas que chegam à capital: “Senhores visitantes, em Brasília evitamos buzinar”. O pior é que é verdade. Fon fon é uma onomatopéia rara nas vias da cidade. Espera-se 40 minutos atrás de um carro que não consegue entrar no fluxo, encosta-se no pára-choque de outro que segue a 20 km/h na pista da esquerda, mas nada de meter a mão na buzina. O brasiliense desconhece, ou finge desconhecer, esse eficaz, enquanto improdutivo, instrumento de catarse. Morde os lábios, desfia impropérios, faz cara feia; tudo menos ser malcriado. O problema é que, no trânsito, polidez não corresponde a efetividade. O motorista daqui é notoriamente barbeiro. E, se buzinada não pode, que leve pelo menos um troféu. Abacaxi.

Comments (4) »

Trilha sonora

When the music’s over…Não entendo nada de música. Minha única tentativa de instrução musical, aliás, terminou, entre colcheias e semínimas, numa ameaça de crise conjugal. A inaptidão para aprender a tocar um instrumento, porém, não me impede de ser um melófilo. Sim, é assim que se chamam os apreciadores de música, em oposição aos melófobos e um degrau psiquiátrico abaixo dos melômanos. Sou também um CDófilo e, voltando finalmente à vaca fria, este degredo em Brasília tem me permitido sessões diárias com parte da minha coleção de discos. Por isso, e por mais nada, resolvi montar uma seleção de músicas que, num momento ou outro desta minha vida brasiliense, serviram de fundo musical para noites de paciência Spidertrabalho ou danças solitárias pelo cubículo que um arquiteto qualquer resolveu, um dia, batizar de sala. Com vocês, sem mais delongas e em ordem meramente alfabética, a primeira – e, com sorte, a última – lista de músicas capitais:

“Calcutta blues” – Dave Brubeck
“Creep” – Radiohead
“Diplomata” – Altamiro Carrilho e Carlos Poyares (Pixinguinha)
“El haz sensor” – Los Tres
“Fast car” – Tracy Chapman
“Marmelade” – System of a Down
“Ponta de lança africano (Umbabarauma)” – Jorge Ben
“Samba do avião” – Baden Powell (Tom Jobim)
“Televisão de cachorro” – Pato Fu
“Timoneiro” – Paulinho da Viola
“Valsinha” – Chico Buarque (Vinicius de Moraes e Chico Buarque)

Comments (3) »