Archive for agosto, 2007

Queimaduras

Tu és o sol e eu sou a lagartixaNão existe nada como o sol de Brasília. A estimativa do índice UV para hoje varia de 10, pela Rede de Meteorologia do Comando da Aeronáutica (Redemet), a 16, pelo Weather Channel. Esses valores, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), enquadram-se, respectivamente, nos níveis “muito alto” e “extremo”. Ou, em português castiço, na categoria única forte pra cacete. Por sorte, graças à umidade do ar ligeiramente baixa (15%), suor não é problema. A preocupação atém-se a questões menores, como sardas, queimaduras e câncer de pele.

O que importa, porém, é que não existe nada como o sol de Brasília. O fim de tarde da capital, para opiniões mais ou menos tendenciosas, é incomparável. Do alto da Torre de TV, da beira do Lago Paranoá ou da Ermida Dom Bosco, o pôr-do-sol é um espetáculo que encanta a um só tempo brasilienses tostados e turistas ressequidos, num momento singelo de desidratada união. Nesses breves minutos, o Sol, coadjuvado pela arquitetura, é a grande estrela. Com trocadilho infame e tudo.

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Margaridas

Margarida Maria Alves, 1943-1983Passei o dia à procura de uma forma original de comentar a Marcha das Margaridas, manifestação que reuniu 30 mil pessoas, parou o trânsito e reviveu clichês hoje em Brasília. As frases de efeito que me surgiram à cabeça revelam os caminhos obtusos que percorri. Dia de fúria. Apareceram as margaridas. Cansei. A verdade é que faltou coragem para perpetrar cretinices desse quilate. E para reprisar a lengalenga da colisão de direitos. E para insistir na incompetência das autoridades de trânsito.

Resolvi, então, contar a história da líder sindical de Alagoa Grande, na Paraíba, assassinada em 1983, na porta de casa, diante do marido e dos dois filhos. Movia, à época, como presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município, 72 ações contra usineiros e fazendeiros, por desrespeito a direitos trabalhistas. O julgamento do acusado de ser mandante do crime levou 18 anos para acontecer. Ninguém foi punido pela morte.

Não sou a favor dos protestos em Brasília. Também não sou contra. Vivo em cima do muro. Aqui não acontecem dias de fúria. Ninguém se cansa. E nunca aparecem margaridas.

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Mancadas geográficas

Abre o olho!Carrefour. Shopping. Candango. Embora a charada não fosse das mais difíceis, surpreendi-me ao perceber que havia entendido perfeitamente o recado do sujeito que berrava: a van seguiria pela EPIA (DF-003), rumo ao supermercado Carrefour, ao Park Shopping e, ulteriormente, à Candangolândia. Imaginei, como de hábito, que o lugar ficava a léguas sem fim de distância. Porém, para meu espanto, a XIX Região Administrativa situa-se logo ali, ao lado do Jardim Zoológico. Bem antes de onde mora minha ignorância.

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Pais do dia

Lugar no céuAo pôr as rodas fora de casa no Dia dos Pais, esperava ver uma cabeça de bacalhau, um filhote de pombo, um entrevistado do Ibope. Mas a cena que testemunhei, a poucos metros do meu prédio, foi muito mais surpreendente. Pai e filho soltavam pipa num gramado, sossegados, em aberto desafio ao postulado de que não há pessoas nas ruas de Brasília. A delicadeza do momento, em improvável cenário, trouxe um sentimento distinto do tom usualmente lamurioso destas Dores Capitais. Lembrei que, além de seca, terra vermelha, protestos e radares, a cidade tem seus encantos. Estes, como os endereços exóticos, nem sempre são fáceis de se achar. Pero que los hay, los hay.

Lembrei também que meu pai partiu este ano sem conhecer a nova casa do filho. Ele, que, como eu, fazia jus ao trocadilho do nome, provavelmente reclamaria de tudo, o que não me impediria de captar a doçura de suas palavras. Nada mais natural. Comunicar-se pela estranha língua dos queixumes, a exemplo de soltar pipa, é uma arte que se passa de pai para filho.

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Ripa na chulipa

A vôimaA noite de ontem foi marcada por mais uma impiedosa sessão de maus tratos à bola. Das 21h às 22h30, o indefeso ser esférico viveu momentos de terror, protagonista involuntário de tragicômico espetáculo de falta de categoria. Não que, há um mês e meio, quando teve início o calvário, faltassem indícios. A começar pela escolha do clube. Acredite, meu amigo: jogamos nosso arremedo de futebol num local chamado Motonáutica. Futebol, motonáutica, entendeu? Não? Pois somos poucos.

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Sem gentílico

Mapa de Brasìia, digo, do Distrito FederalMeu mundo ruiu. Acabei de descobrir que não moro em Brasília. Sou, na verdade, um humilde residente da Região Administrativa XXII do Distrito Federal (Sudoeste/Octogonal). De acordo com o livro Brasília, capital do Brasil, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal (IHG-DF), Brasília resume-se à Região Administrativa I, anteriormente denominada Plano Piloto. O resto, além de ser o resto, divide-se nas outras 28 RAs do DF: Gama (II), Taguatinga (III), Brazlândia (IV), Sobradinho (V), Planaltina (VI)… e muitos outros lugares que você só conhece das músicas do Legião Urbana.

Obviamente, a definição do IHG-DF é amplamente contestada, e os argumentos são, por vezes, formidáveis. Meu preferido: se Brasília corresponde apenas à RA I, por que todos os carros do Distrito Federal têm placas de DF-Brasília? É uma pergunta tão pujante que só resta aos chucros engrossar o coro.

Por quê? Por quê? Por quê?

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