Archive for dezembro, 2008

Nossa idéia de calçada

EndlessDos mitos a respeito de Brasília, um dos mais infundados é o de que a cidade não tem calçadas. Em diversos pontos, os caminhos existem, ainda que a escassez de pedestres torne um pouco difícil identificá-los pela finalidade. O que falta, muitas vezes, é mesmo a intimidade com a coisa. Calçada, num lugar onde não se caminha, sai cheia de buracos, estreita, mal-localizada e, ocasionalmente, interminável. Interminável, esclareça-se, não no sentido de prolongar-se indefinidamente no espaço, mas no mais singelo de não (poder) ter fim. O sujeito manda construir um caminho em torno de uma área verde, os operários cumprem as ordens e, na hora de pôr termo à obra… sai isso.

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Gota

A desintegração da persistência da memória, 1954Ouvir comentários surreais, aqui no DF, não é exatamente incomum. Por vezes, entretanto, a pérola atinge um nível tão elevado que a única providência adequada é imortalizá-la. Na falta de uma placa de bronze, a opção é gravá-la em meio a estas besteiras capitais, na esperança de que as gerações futuras possam travar contato com a sensatez, erudição e propriedade de seu conteúdo. Sem contexto, delongas ou explicações adicionais, aproveite:

“Com um salário de nove mil, no Rio, só dá para morar na favela.”
Anônimo, em 14 de dezembro de 2008

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Delícias brasilienses

Delicia 459Os brasilienses não cabem em si de orgulho. A cidade emplacou nada mais nada menos que cinco atrações entre as “500 delícias do turismo e da gastronomia nacional” selecionadas para edição especial da revista Veja. Sim, o desempenho deixa a capital federal atrás de Belo Horizonte (11), Curitiba (11) e Porto Alegre (7), mas confirma a superioridade em relação a Goiânia, capital do Goiás, que teve apenas quatro destaques. Toma!

São as seguintes as maravilhas que garantiram a Brasília a gloriosa fatia de 1% nas “delícias nacionais”: Catedral Metropolitana, Praça dos Três Poderes (passeios), restaurante Universal Diner, restaurante Aquavit e Complexo Cultural da República (arquitetura).

E olha que faltou o melhor.

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500 para 50

Relógio de marcar diasO relógio encravado à margem do Eixo Monumental anuncia: faltam 500 dias para os 50 anos de Brasília. É de se parar para pensar. No dia 21 de abril de 2010, a capital do Brasil, ó pátria amada, salve, salve, alcançará a cabalística idade e tudo será diferente. O jornal poderá mudar o texto da seção de memória para “Há 50 anos…”. Os primeiros nascidos por aqui poderão, finalmente, se declarar legítimos cinqüentões. E o mais importante: estaremos, acredite, a apenas 50 anos do centenário!

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Camarote

De Pirassununga para minha janelaDomingo agitado em Brasília: última etapa da Fórmula Truck, no Autódromo Nelson Piquet; Monobloco e Jorge Aragão no Marina Hall; jogo decisivo do Brasileiro no… certo, esse foi no Gama. No entanto, a melhor atração, por ocasião da F-Truck, foi a apresentação da Esquadrilha da Fumaça. Na janela da minha casa.

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Disneylândia, DF

OriginalA W3 Norte virou praça de guerra no fim da tarde de ontem, quando três bandidos armados atacaram funcionários de uma empresa de transporte de valores na frente da agência do Banco do Brasil da 504 Norte. O saldo da chuva de tiros que espalhou o pânico na área foi um vigilante morto e outro ferido. Os assaltantes fugiram a pé e, segundo testemunhas, levando um malote de dinheiro, o que é negado pela polícia. Se a ação tiver sido consumada, a ocorrência deve ser tipificada como latrocínio, o roubo seguido de morte. Um crime que já cresceu 13,6% este ano em comparação a 2007.

Bastaram poucos dias em Brasília para que me chegasse aos ouvidos a popular analogia entre a capital e a Disneylândia. A comparação, fundamentada no realismo fantástico do padrão de vida local, nunca me agradou. Primeiro, por confundir Brasília com Brasília, quando, na verdade, Brasília é muito mais confundida com o Distrito Federal. Segundo, por referir-se, em tom faceiro, a uma realidade que costuma levar a tragédias e não a passeios divertidos ao lado de criaturas de pelúcia.

No coração desta Disneylândia candanga, como se vê pela matéria do Correio Braziliense, Mickey morre na praça de guerra, Pluto corre de bandidos armados e Donald cai sob chuva de tiros. E o pior: haverá aqueles que, ao se depararem com essa péssima letra de rap (ou música dos Titãs), pensarão estar diante de uma inesperada novidade.

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Capital do futebol

Pimba na gorduchinhaO povo do Distrito Federal não cabe em si. Depois de ver quatro times locais disputando o Campeonato Brasileiro de 2008* e de testemunhar a maior goleada da seleção na Era Dunga, os distritais encerrarão o ano recebendo a partida decisiva da Primeira Divisão, entre São Paulo e Goiás, no próximo domingo. Graças a uma punição aplicada ao clube goiano, bem como às habituais forças intergalácticas, o título do melhorpior Brasileirão dos últimos tempos será conquistado ou perdido no glorioso Bezerrão, mesmo palco do passeio verde-e-amarelo em Portugal. O destino conspirou tão bem que o torcedor da capital, se for esperto, poderá sair feliz da vida com qualquer resultado. É só torcer pelo tricolor.

* Brasiliense e Gama (rebaixado) na Segundona, Dom Pedro II e Legião na Terceirona.

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