Archive for fevereiro, 2009

Estepe do crioulo doido

NovidadeSempre atento às estatísticas oficiais, o Correio anunciou, na edição da quarta-feira de cinzas, que o “estepe é o novo alvo do crime no DF”. No texto, um pouco mais preocupado com os fatos, esclarece que “o crime incomoda o brasiliense há dois anos”. Entendeu? Trata-se de um crime novo que acontece há dois anos. A matéria, pelo menos, delimita bem as situações de risco, ao informar que “os arrombamentos são mais comuns em estacionamentos públicos, enquanto o dono está no trabalho, na faculdade ou em casa” e ressaltar que “proximidades de locais de festas e de áreas de lazer também atraem os criminosos”. Ou seja, quem não estiver no trabalho, na faculdade, em casa, numa festa ou numa área de lazer, pode ficar tranqüilinho!

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Natureba

Verde e prataEmbora contraditado por minha protuberância abdominal, desenvolvi, aqui em Brasília, certa predileção pelos restaurantes naturais. Seguramente, o fato de não serem fundamentalistas ajudou, mas a verdade é que a maioria – dos que conheço – oferece uma satisfatória mistura de sabor, ambiente agradável e preços acessíveis. O quilo varia em torno de R$ 30, o que resulta em refeições de cerca de R$ 15, com direito a um suco natural.

A vedete do ramo é a rede Naturetto, com restaurantes na 405 Norte e 403 Sul, mais um cantinho apertado no Anexo IV da Câmara dos Deputados. Além de grande variedade de legumes e verduras, tem no cardápio um (nada) apetitoso picadinho de glúten, um delicioso arroz integral e peixes grelhados e ao molho. Na filial da 403 Sul, chamada de “Família”, o rango pode incluir aberrações como carne grelhada e pizza.

Na 105 Norte, A Tribo aposta na filosofia do “menos é mais”. As saladas são escassas e o resto passa longe do farto. Mesmo assim, o quibe de tofu e tomate seco, o suflê de bacalhau, a feijoada natural e o alho assado não deixam ninguém passar fome. Os sucos, com destaque para o famoso Bomba, também agradam. Ponto negativo: a bebida costuma chegar quando o freguês já está a caminho de casa.

Os outros dois naturais da minha lista pessoal ficam um tantinho atrás: o Natural Green’s (202 Sul e 302 Norte) é pouco mais que um bufê de saladas, enquanto o Bardana (405 Sul), que confesso não visitar há tempos, traz – ou trazia – uma mescla meio desarmônica sob o rótulo de lactovegetariano.

De tanto comer nesses lugares, pensei, mais de uma vez, em me tornar vegetariano. Nada, porém, que uma suculenta picanha não resolva.

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Eu, eu mesmo e Campos

Auto-retratoDois anos de mudança costumam ensejar momentos de reflexão. Por sorte, minha e do leitor, a falta de tempo e uma oportuna leitura recente se uniram em prol do bom gosto. O texto é de Campos de Carvalho, em A lua vem da Ásia; os olhos fechados e abertos são meus.

Um chinês bêbado é muito difícil de distinguir-se de um chinês sóbrio. Ambos têm olhos fechados, embora abertos, e sorriem tranqüilamente para o nada, como é do seu hábito. Há instantes em que eu me sinto um chinês perfeito – Chiang O’Lyi, por sinal – e me ponho a rememorar todos os meus antepassados milenários, com rabichos e bigodes em forma de antena, captando o mistério que vem dos subterrâneos do mundo. Cada dia, aliás, eu pertenço a uma raça diferente, negra, amarela, roxa ou simplesmente furta-cor, e já me tem acontecido despertar sob a pele de uma raça ainda inexistente e de que só darão notícia os etnólogos dentro de mil anos, se até lá chegar a raça humana.

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