Archive for julho, 2009

O samba abunda (II)

Do Porto Seco para a SapucaíOs foliões brasilienses estão em polvorosa. A cidade não apenas será enredo da hendecacampeã Beija-Flor no Carnaval do Rio em 2010, como também poderá entrar com o samba que conduzirá a escola na avenida (aham!). No último domingo, grandes nomes da azul-e-branco de Nilópolis passaram pela quadra da gloriosa Aruc, 29 vezes vencedora no Distrito Federal (portanto, como todo mundo sabe, eneaicosacampeã), e escolheram quatro criações de compositores locais, que enfrentarão as pratas da casa em agosto. Destaque para o samba de Cláudio Vagareza, Lollo e Binho da Paz, que em 29 versos não cita uma única vez os nomes de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Original.

Reluz num sonho encantado
Vai… meu Beija-Flor aventureiro
Anunciar a terra prometida
Visão divinal da flor do cerrado brasileiro
Em lágrimas que abraçam o luar
Refletiu amor para a eternidade
E emergiu na ancestral herança de Aketaton
Nas asas sagradas de Íbis, Egito foi a sua inspiração
Desbravadores ao encontrar esse chão
Rasgando o seu coração, erguem bandeiras
Sopram os ventos da liberdade
Dos revoltosos, as insurreições

Raiou, o Deus sol guiou
A missão alcançou no centro-oeste chegou
Onde a natureza emoldurava a imensidão
Palmilhou o solo da nação

JK, a luz da modernidade
Esperança e prosperidade
Candango suor da criação
Desperta gigante, capital da esperança
Do papel, a cruz se lança como sonho a voar
E hoje brilha cada alvorada
Ao romper da madrugada resplandece o seu valor
Patrimônio da humanidade
Realidade na família Beija-Flor

Um canto de amor ecoa
Brasília é arte e faz encantar
O povo da baixada te abraça
Orgulhoso a te exaltar

* O enredo desinteressado da Beija-Flor para 2010 é “Brilhante ao sol do novo mundo, Brasília do sonho à realidade, a capital da esperança”.

Anúncios

Comments (6) »

Um custo de vida (redux)

Relativismo financeiroTemas populares merecem ser revisitados e, na breve existência destas Dores Capitais, nenhum outro se destacou tanto. O povo conectado quer saber: quanto custa morar em Brasília? A resposta, evidentemente, depende do nível socioeconômico, do estilo de vida, do momento e, sem dúvida, do relativismo axiológico. A grande verdade, no entanto, é que custa caro. É fato que nem sempre tão caro quanto a elite mais perdulária do país gostaria…

Alimentação
Brasília tem opções para todos os gostos e bolsos. Como em qualquer cidade, os preços tendem a ser mais altos nas regiões mais nobres e mais baixos nas mais modestas, mas os restaurantes dos órgãos públicos garantem uma alternativa de preço reduzido (em torno de R$ 10, o quilo) até no Plano Piloto. Menus degustação à bagatela de R$ 165, pratos feitos a R$ 5 e bufês insuspeitos a R$ 11,90 (com churrasco!) completam a variedade à disposição do morador da capital. Os supermercados praticam preços razoáveis, talvez ligeiramente acima da média, devido à localização da cidade. Suicídio financeiro mesmo é fazer as compras do mês nos “mercados de bairro”.

Habitação
A vilã mor do mitológico custo de vida brasiliense é a moradia. Não pode ser normal pagar quase R$ 2 mil num apartamento de dois quartos no Plano, mais de R$ 1 mil numa quitinete e R$ 600 numa moradia nada luxuosa em cidades-satéliteregiões administrativas mais distantes da zona central. É uma mistura de bolha de sabão com bola de neve que, para alguns, tem os dias contados e, para outros, garante uma prosperidade sem esforço. Enquanto o apocalipse não chega, o jeito é coçar o bolso, procurar bem e pechinchar – não que adiante muita coisa.

Transporte
A gasolina de Brasília, a tabelados R$ 2,67, é uma das mais caras do país. Já o bilhete do metrô, a R$ 3… bem, esse é um dos mais caros do país. E a passagem de ônibus, de R$ 2 a R$ 3, é apenas… ahn, uma das mais caras do país. O táxi, sim, também é um dos mais caros do país. Contudo, com bandeirada a R$ 3,30 e quilômetro rodado a R$ 1,80/2,18, pelo menos fica abaixo de São Paulo, onde as tarifas dos carros de praça são de R$ 3,50 e R$ 2,10/2,73, respectivamente. Viva.

Saúde
Não se aplica totalmente. Aqui vale a regra perversa do resto do país. Quem consegue pagar, direta ou indiretamente, um plano de saúde vive com relativa tranqüilidade. O resto que se vire na rede pública, que, a se julgar pela avaliação dos cidadãos, não difere do padrão de (falta de) qualidade brasileiro. A novidade é que, talvez se sentindo excluídos, em meio à maior renda per capita do país, especialistas como pediatras e oftalmologistas começam a se amotinar contra os planos de saúde. As farmácias, na outra ponta, capricham nos preços.

Comments (3) »

Cada um no seu cubo

Hmm... deixe-me ver...Enquanto não garante o jogo de abertura da Copa de 2014, Brasília toca a vida recebendo outros grandes eventos, com o devido destaque na imprensa local. Neste fim de semana, por exemplo, acontece o Brasília Open 2009. Trata-se de nada mais nada menos que o 4° Campeonato Brasileiro de Cubo Mágico (Rubik’s Cube). A competição é reconhecida pela Associação Mundial de Cubo Mágico e vale pontos para os rankings oficiais. Os “atletas” disputam o título em modalidades básicas e outras como Multi BLD (múltiplos cubos com os olhos vendados), Cubo 7x7x7 (cubos de sete colunas e sete linhas) e Megaminx (dodecaedro).

* Reavivando o gasto debate, o Brasília Open 2009 acontece na Universidade Católica de Brasília (UCB), situada em Taguatinga.

Comments (1) »

Cartel general

Mãos ao alto!Nada como viver num lugar organizado. Em Brasília, antes de sair de casa, o motorista dono de um carro com tanque de 50 litros (vazio) já sabe que vai gastar R$ 133,50 para enchê-lo de gasolina. Quem propicia a conveniência são os postos de combustível. Pesquisar preços, por aqui, é um convite a dormir no volante: R$ 2,67, R$ 2,67, R$ 2,67, R$ 2,67…

Levantamento realizado pela Agência Nacional de Petróleo de 5 a 11 de julho, em 90 postos de Brasília, mostra uma diferença abissal entre os preços médio e máximo da gasolina: R$ 2,63 e, surpresa!, R$ 2,67. Em Belo Horizonte, os valores correspondentes ficaram em R$ 2,28 e R$ 2,56; em São Paulo, R$ 2,33 e R$ 2,69; em Porto Alegre, R$ 2,48 e R$ 2,59.

Vejamos, apenas por curiosidade, o art. 4º da Lei 8.137/90 e o art. 21 da Lei 8.884/94:

Art. 4° Constitui crime contra a ordem econômica:

(…)

II – formar acordo, convênio, ajuste ou aliança entre ofertantes, visando:

a) à fixação artificial de preços ou quantidades vendidas ou produzidas;

Art. 21. As seguintes condutas, além de outras, na medida em que configurem hipótese prevista no art. 20 e seus incisos, caracterizam infração da ordem econômica;

I – fixar ou praticar, em acordo com concorrente, sob qualquer forma, preços e condições de venda de bens ou de prestação de serviços;

O Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis Automotivos e de Lubrificantes do Distrito Federal (Sinpetro) costuma afirmar publicamente que tudo não passa de coincidência. Os motoristas de maior renda per capita do país preferem seguir emburrados e calados.

O suposto problema é que a suposta responsabilidade por supostamente investigar suposto esquema de suposto acordo para supostamente fixar preços é do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), com sede no longínquo Setor Comercial Norte, Quadra 2, Projeção C, na remota localidade de… Brasília.

Comments (9) »

Oi e tchau

Nada de Oi para a música...Durou pouco a existência do Espaço Brasil Telecom. A casa começou bem, com Fernanda Takai apresentando seu excelente remake de Nara Leão em março do ano passado, e acabou melancolicamente, numa morte anunciada, “festejada” pela banda pernambucana Mombojó em 25 de junho último. Das 197 atrações que passaram por lá, só assisti a uma, Teresa Cristina, mas o resto da lista – nacional e internacional – é igualmente respeitável.

Com o desinteresse da Oi (que comprou a Brasil Telecom), os pequenos espaços para shows da cidade voltam a ser dominados pelas empresas públicas. Para quem ainda acredita que nada acontece em Brasília, vale a pena dar sempre uma olhada na programação da Caixa Cultural, onde já conferi Época de Ouro e Nei Lopes, e do CCBB, onde vi o mesmo Jorge Drexler que andou passeando pelos mais badalados palcos do Canecão (RJ) e Bourbon Street (SP) no mês passado.

Mas o Espaço Brasil Telecom não parte como unanimidade. Muita gente criticava a localização, num hotel de luxo distante do centro e sem acesso por transporte público, e a dificuldade para a compra de ingressos, somente no próprio local ou por um site especializado. De certa forma, portanto, a casa era um retrato de Brasília: excludente, isolada e descolada da realidade.

Lá, pelo menos, ouvia-se boa música.

Comments (5) »

Teste de resistência

Quem? Quem?Momento diário: perdi um pedaço de gruyère. Revirei a geladeira, conferi no cupom fiscal, culpei injustamente a caixa do supermercado. Então me veio uma luz. Peguei a chave do carro, desci as escadas correndo, abri a porta, enfiei a mão embaixo do banco do motorista (eu) e lá estava. Sinceramente, não esperava encontrá-lo tão bem, depois de (o queijo) enfrentar o calor infernal de Brasília trancado num automóvel. E o friozinho, à noite, também.

Por oito dias.

Não ando muito bem.

Comments (6) »