Archive for novembro, 2009

50 Cruzeiro

Lar da nobreza da capitalUma repassada por seus nomes anteriores – Cemitério e Gavião – basta para ver que o Cruzeiro não é a típica vizinhança de Brasília. Nas frentes das casas, vizinhos batem papo; em torno dos prédios, cercas protegem os moradores de si mesmos. Nas ruas, carros e motos – ocasionalmente importados, quase sempre populares – circulam num ritmo diferente da procissão a vidros fechados das grandes avenidas. Lá existe feira, ginásio, quiosque de costureira, escola de samba, bar de flamenguista.

Nascido “núcleo urbano”, reclassificado como Setor Residencial Econômico Sul (SRES), uniu-se, por lei e afinidade, ao Setor de Habitações Coletivas Econômicas Sul (SHCES) e assim virou, no fim da década de 1980, Região Administrativa.

Hoje, 30 de novembro, o Cruzeiro completa 50 anos. Vizinho do nobre Sudoeste, tecnicamente no Plano Piloto, não passa de um bairro de subúrbio. Parabéns.

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Yes, we have mensalão

Uma chance para o candangoDa edição deste sábado da Folha de S. Paulo:

Relatório da Polícia Federal na Operação Caixa de Pandora traz uma gravação na qual o governador José Roberto Arruda (DEM-DF) pede a um assessor que repasse a políticos aliados dinheiro de empresas contratadas pelo governo.

Contra esse suposto esquema, a PF deflagrou ontem a operação, cumprindo 16 mandados de busca e apreensão em Goiânia, Belo Horizonte e Brasília. Na capital federal foram feitas buscas nas casas e em gabinetes de secretários do governo e de deputados distritais, além de um anexo na casa oficial de Arruda. Mais de R$ 700 mil foram apreendidos, além de dólares e euros.

José Roberto Arruda, para os desinformados, é aquele cidadão probo que, em 2001, negou veementemente qualquer envolvimento no episódio da violação do painel do Senado, para dias depois admitir sua participação e renunciar, salvando-se da cassação do mandato. Nessa época, proferiu um dos discursos mais emocionantes da história do Senado Federal, revelador de muitos de seus princípios políticos.

“Permitam-me [tomar mais cinco minutos], com o meu sofrimento, com as vísceras da minha emoção expostas à execração pública. Eu que não tenho bens pessoais, não tenho fortuna. Mas tenho a honra. E tenho filhos, que têm o meu nome, os naturais e os que adotei. E a esta honra, eu serei fiel, enquanto viver.”
José Roberto Arruda, 18 de abril de 2001

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Sorrindo (à toa)

Uma tia felizSe Brasília não é o paraíso, deve ficar bem perto. Segundo pesquisa realizada como parte de tese de doutorado em economia, a ser defendida na UCB, 85,69% dos brasilienses são felizes ou muito felizes. Os infelizes ou muito infelizes, por sua vez, representam só 5,92%. Aspectos como gênero, estado civil e religiosidade, aparentemente, não exercem influência significativa no grau de satisfação com a própria vida. A verdade, não obstante, é que as chances de ser feliz são um tantinho maiores para o seguinte perfil: mulher, acima de 45 anos, solteira, sem filhos, religiosa. Vai encarar?

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Convenções

Onde eu paro, moço?Reinaugurado (parcialmente) em 2005, o Centro de Convenções Ulysses Guimarães ocupa 54 mil metros quadrados e tem capacidade para 9,4 mil pessoas, de acordo com a Secretaria de Turismo do Distrito Federal. Recebe, anualmente, dezenas de espetáculos, feiras, exposições e, ahm, convenções. Nestes quatro anos do novo centro, aconteceram lá apresentações de estrelas da MPB, como Caetano Veloso, Chico Buarque e Marisa Monte, e eventos de porte, como o Fórum Espiritual Mundial, organizado pela União Planetária. E, para completar, a Secretaria de Turismo aproveita para incentivar o transporte solidário: o CCUG deve ser o único centro de convenções sem estacionamento no mundo.

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Os mandarins

Mais importante que o Nobel de 1994Momento histórico na última terça-feira: Shimon Peres, presidente de Israel, recebeu da Câmara Legislativa do Distrito Federal o título de cidadão honorário de Brasília. Extasiado com a comenda, o Prêmio Nobel da Paz de 1994 rasgou-se em doces palavras, que culminaram numa bombásticagrandiloqüente descrição da cidade: “Brasília é a capital do mundo novo porque aqui criam um lugar maravilhoso onde o homem está no centro de tudo”.

Embora não haja razão para se desconfiar da sinceridade do líder israelense, sua frase contrasta radicalmente com as impressões de outras personalidades que estiveram por aqui nestes quase 50 anos. E talvez o melhor exemplo diverso venha de Simone de Beauvoir, uma autêntica pioneira, que conheceu o Planalto Central já em 1960, ao lado de Sartre e ciceroneada pelo casal Jorge Amado e Zélia Gattai.

“À noite, enfim, chegamos a Brasília. Uma maquete em tamanho natural. Essa falta de humanidade salta logo aos olhos… Só se pode circular de automóvel… A rua, esse lugar de encontro entre moradores e turistas, lojas e residências, sempre imprevista – a rua, tão cativante em Chicago como no Rio, por vezes deserta e sonhadora, mas cujo silêncio é vivo. A rua, em Brasília, não existe nem existirá.”

“Guardo a impressão de ter visto nascer um monstro, cujo coração e pulmão funcionam artificialmente, graças a processos de um custo mirabolante.”
Simone de Beauvoir, A força das coisas

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Justify my love

Parabéns pra você...Um debate acalorado movimenta a capital nos últimos dez dias: Madonna ou Paul McCartney, quem deve fazer o grande show dos 50 anos de Brasília? O ex-beatle quase foi descartado, por não garantir exclusividade, mas Macca, aparentemente, continua firme na disputa. Madonna, por sua vez, mantém o mistério, enquanto se engaja em ações filantrópicas no Rio. Com um ou outra, ou ainda uma terceira (Beyoncé?), a organização da festa tem uma tarefa complicada pela frente: decidir se o parabéns para a capital brasileira vai ser em português ou inglês.

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Inflando a bolha

Uma claque que não fica paradaO Correio Braziliense, em sua observação sempre científica do mercado imobiliário da capital, decreta na primeira página deste domingo: “Noroeste alavanca preços dos imóveis”. Para justificar a conclusão, o jornal ouviu uma turma absolutamente desinteressada nos efeitos de uma manchete desse quilate: os empresários do setor. Num show de isenção, os nobres analistas prevêem que, em cinco anos, o metro quadrado de um apartamento alcançará R$ 20 mil. Em outras palavras, ou números, um imóvel de 80 m² custará a bagatela de R$ 1.600.000,00. Já dá até para imaginar o comercial: que cobertura duplex em Ipanema, que nada, compre um aconchegante loft na área mais nobre de Brasília!

Se o repórter do Correio não conhece a lição mais rudimentar do jornalismo, os “especialistas” do mercado imobiliário, a se julgar pela fundamentação do prognóstico milionário, também parecem ter perdido a primeira aula do curso de investimentos: rentabilidade passada não é garantia de rendimento futuro.

Eu sei. Há (muita) gente que, mesmo acreditando em saci, mula-sem-cabeça e curupira, acha que bolha imobiliária não passa de delírio de lunático desinformado. Que o diga um vizinho que, há meses, mantém na varanda uma bela faixa amarela, na esperança de vender seu valorizado apartamento por um preço justo.

Meu conselho ao pobre cidadão: tenta botar um anúncio no Correio.

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