Archive for abril, 2010

Imprensa que eu gamo (II)

Preocupação com o nível do jornalismoOs maiores menores jornais do mundo estão em polvorosa. Não bastassem as sucessivas mudanças de governo, que prosseguirão necessariamente com a intervenção federal e/ou as eleições de outubro, testemunham agora uma invasão lusa no mercado brasiliense. No rastro do anúncio de planos ambiciosos do grupo Ongoing, circulou, em pleno aniversário da cidade, o número zero do Destak, jornal gratuito que outro grupo português, o Cofina, já distribui em São Paulo e no Rio de Janeiro. O lançamento definitivo deve acontecer em maio.

As críticas delirantes podem até insinuar que os empresários locais temem pelo futuro das generosas cotas publicitárias hoje reservadas pelo GDF a suas publicações (em nome do interesse público), mas a preocupação, garantem, é tão-somente com a qualidade do jornalismo praticado na capital do país. É, afinal, uma temeridade que o nível melhore tanto de uma hora para a outra.

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Som e fúria

Poesia em ondasAs louvações poéticas a Brasília raramente fogem aos ipês em flor, ao céu inigualável ou ao modernismo niemeyeriano. Outros tesouros da capital, enquanto isso, permanecem esquecidos – e, talvez por essa exata razão, sejam ainda mais preciosos. Os dias de festa, mesmo os contraditórios que se encerram agora, têm ao menos uma utilidade: a música toca e, quase por milagre, se faz ouvir a quilômetros de distância. Os terrenos descampados, os prédios baixos, o relevo plano explicam muita coisa do ponto de vista acústico-arquitetônico, mas, na madrugada, identificar os acordes de um rock qualquer, vindos do outro lado da cidade, ultrapassa a mera racionalidade. Este é um centro urbano em que o som se propaga livremente. É também, infelizmente, um lugar em que o silêncio se torna cada vez mais ensurdecedor.

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5 anos em 50

Relógio pré-panetoneSe o slogan do governo de Juscelino Kubitschek era 50 anos em 5, o bordão de sua maior criação, neste primeiro cinqüentenário, bem poderia ser o inverso. Da inauguração, em 21 de abril de 1960, com direito a desfile, fogos de artifício e Esquadrilha da Fumaça, à megafesta dos 50 anos, com direito a desfile, fogos… Brasília avançou destemida e irresistivelmente rumo a um futuro luminoso. A passo de cágado.

Hoje, gaba-se da “qualidade de vida“, da “tranqüilidade” e da “maior renda per capita do país”, esquecendo-se de que essa “terra das oportunidades” também consome um orçamento anual de mais de R$ 20 bilhões (na média por habitante, quase três vezes o de São Paulo), é campeã de desigualdade e vive cercada por miséria e violência crescentes. De tão bem planejada, organizou até a pobreza, isolando os indesejáveis com a Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), na década de 1970. A Ceilândia que conte essa história.

Os sucessivos governos, do então ainda prefeito Israel Pinheiro ao governador-tampão Rogério Rosso, somaram-se no esforço de criação de uma estrutura monumental (com trocadilho), capitaneada por um exército de servidores comissionados que, em 2010, superam a marca de 8 mil – mais que no Governo Federal. Prestativo, o poder público brasiliense tem ajudado, incansavelmente, na formação de uma elite de milionários, que a custo de muito sangue, suor e um plano diretor aqui, uma liberalidade ali, ergueram impérios que somente corroboram sua predestinação.

E o povo? Ah, o povo é outra história. O povo não se confunde com os políticos corruptos, os empresários inescrupulosos e os facínoras em geral. O povo não tem nada a ver com isso. O povo merece essa festa.

Vai passar
(Francis Hime/Chico Buarque)

Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar
Ao lembrar
Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais

Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria-mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações

Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal
Tinham direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia

Que se chamava carnaval
O carnaval, o carnaval
(Vai passar)
Palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do bulevar
Meu Deus, vem olhar
Vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral

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Altos e baixos

Rios de lágrimasNo sábado, estive na Chapada Imperial, uma área privada de 4.800 hectares em que se situam o ponto mais alto do Distrito Federal (1.342 metros) e belíssimas cachoeiras. Os proprietários oferecem aos visitantes pacotes de R$ 40 a R$ 60, que incluem trilha com guia, almoço e acesso à estrutura de arvorismo ao lado da sede. A melhor parte, sem dúvida, são as cachoeiras e poços para banho. E o destaque, nesse quesito, é a Cachoeira da Rainha, última parada da trilha mais longa (4,5 km), onde o caminhante encontra uma queda de 22 metros e uma providencial piscina natural. Na volta, depois de cinco horas de passeio, os visitantes são recebidos por um almoço com galinhada, que, se não comove o paladar, é favorecido pelo irresistível tempero da fome. A 50 km do centro de Brasília, a Chapada Imperial é uma ótima (e um pouco cara) alternativa à programação básica do brasiliense – shopping, restaurante, cinema.

Ainda no sábado, já à noite, a Câmara Legislativa elegeu, com votos de todos os distritais envolvidos no panetonegate, o peemedebista Rogério Rosso, antigo aliado de Roriz e Arruda, como novo governador do Distrito Federal.

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Um dia perfeito

Ainda chego láSol, céu azul, ventinho levemente frio. A quarta-feira foi um dia perfeito em Brasília. Enquanto a Câmara Legislativa recebia as candidaturas de gente do nível de Wilson Lima para governador-tampão do Distrito Federal e a Câmara dos Deputados empurrava – com uma rechonchuda barriga – a votação do projeto Ficha Limpa para maio, o brasiliense curtia o clima prazenteiro, chegando ao cúmulo de caminhar relaxado pelas ruas da capital na hora do almoço. Não sem razão: o dia magnífico merecia.

E, depois desse pronunciamento, é preparar os guarda-chuvas para o temporal de amanhã.

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Argumentos imóveis

Imóveis: eterno bom investimentoO economista Adolpho Sachsida é um sátiro. Depois de tentar dissecar a felicidade brasiliense, apareceu com um tal Índice Bolha, que se dispõe a mostrar que comprar um imóvel no Distrito Federal para alugá-lo pode ser um péssimo negócio. “A definição de bolha especulativa é o descolamento entre o preço real de um ativo e o retorno garantido por ele. No caso específico dos imóveis no DF, verificamos a existência de descolamento entre o que você paga para comprar e o que você ganha com o aluguel”, explicou ao insuspeito Correio Braziliense.

Os piores investimentos, nesse segmento, estariam no Sudoeste, Asa Sul e Asa Norte, que têm índices que variam de 20 a 40, representando rendimento anual de 2,5% a 5% – inferior a diversas aplicações disponíveis no mercado.

O Correio, em seu rigor jornalístico, foi ouvir gente desinteressada para não se deixar levar a conclusões precipitadas. O representante da Fazzioni Consultoria, que vive da bolhado mercado exuberante de Brasília, fez um malabarismo verbal para “explicar” por que, a despeito da furada do aluguel, comprar e vender imóveis é (sempre) uma excelente – e, aparentemente, sustentável – opção na capital.

“Brasília tem um perfil atípico. A oferta do aluguel na região central supera a demanda. Todos estão mais interessados em comprar imóveis. Então, o investidor busca retorno na venda, mas, enquanto tem o imóvel, quer que ele se pague por meio do aluguel.”
Luís Fazzioni, dono da Fazzioni Consultoria, ao Correio Braziliense

E, se Sachsida resolver embutir no Índice Bolha também a irracionalidade do mercado de compra e venda, o consultor já tem outra resposta coerente na ponta da língua: “Esse cara não passa de um… bolha!”

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