5 anos em 50

Relógio pré-panetoneSe o slogan do governo de Juscelino Kubitschek era 50 anos em 5, o bordão de sua maior criação, neste primeiro cinqüentenário, bem poderia ser o inverso. Da inauguração, em 21 de abril de 1960, com direito a desfile, fogos de artifício e Esquadrilha da Fumaça, à megafesta dos 50 anos, com direito a desfile, fogos… Brasília avançou destemida e irresistivelmente rumo a um futuro luminoso. A passo de cágado.

Hoje, gaba-se da “qualidade de vida“, da “tranqüilidade” e da “maior renda per capita do país”, esquecendo-se de que essa “terra das oportunidades” também consome um orçamento anual de mais de R$ 20 bilhões (na média por habitante, quase três vezes o de São Paulo), é campeã de desigualdade e vive cercada por miséria e violência crescentes. De tão bem planejada, organizou até a pobreza, isolando os indesejáveis com a Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), na década de 1970. A Ceilândia que conte essa história.

Os sucessivos governos, do então ainda prefeito Israel Pinheiro ao governador-tampão Rogério Rosso, somaram-se no esforço de criação de uma estrutura monumental (com trocadilho), capitaneada por um exército de servidores comissionados que, em 2010, superam a marca de 8 mil – mais que no Governo Federal. Prestativo, o poder público brasiliense tem ajudado, incansavelmente, na formação de uma elite de milionários, que a custo de muito sangue, suor e um plano diretor aqui, uma liberalidade ali, ergueram impérios que somente corroboram sua predestinação.

E o povo? Ah, o povo é outra história. O povo não se confunde com os políticos corruptos, os empresários inescrupulosos e os facínoras em geral. O povo não tem nada a ver com isso. O povo merece essa festa.

Vai passar
(Francis Hime/Chico Buarque)

Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar
Ao lembrar
Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais

Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria-mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações

Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal
Tinham direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia

Que se chamava carnaval
O carnaval, o carnaval
(Vai passar)
Palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do bulevar
Meu Deus, vem olhar
Vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral

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2 Respostas so far »

  1. 1

    […] tudo, menos normais. Não pode ser normal, por exemplo, o caradurismo de um cidadão que, depois de décadas de fornicação com o interesse público, surge na TV para, impávido colosso, queixar-se das humilhações […]

  2. 2

    […] realidade e paciência exagerada, fundada no lugar comum de que Brasília, aos 52 anos, ainda tem muito tempo para resolver seus problemas. Brasília, afinal, é “capital de um Brasil audaz, bom na luta […]


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