Normalidade

Uma interpretação excepcional da Constituição“Tá olhando o quê? Eu sou normal!”, dizia Francisco Milani, na pele de um de seus personagens mais conhecidos. Agora, tomada pelo STF a decisão contrária à intervenção federal, o bordão poderá muito bem ser assumido por Brasíliapelo Distrito Federal. Na opinião majoritária entre os ministros, afirmada por um acachapante 7 a 1, a capital superou o trauma do escândalo protagonizado pelo ex-governador Arruda graças à atuação de suas instituições, dispensando assim o “antídoto extremo” defendido pela Procuradoria-Geral da República, grande parte da população local e a torcida do Flamengo.

O Distrito Federal voltou à “normalidade” a despeito de manter na Câmara Legislativa a maioria dos supostos comparsas do suposto esquema criminoso entranhado no (suposto?) governo; de ter visto, há menos de um mês, o Conselho Nacional do Ministério Público instaurar processo administrativo disciplinar contra seu procurador-geral de Justiça; de haver assistido, há duas semanas, à descoberta pela Polícia Federal de um bunker com dinheiro e documentos na casa de uma promotora do MPDFT; e de receber, quase diariamente, notícias alentadoras, como a da denúncia pelo Ministério Público Federal de nove deputados distritais que, às vésperas da eleição do governador-tampão Rogério Rosso, em abril último, hospedaram-se num hotel de luxo em Goiânia, com despesas pagas por um empresário.

Em sustentação oral no tribunal, o enviado do governador Rosso, procurador Marcelo Galvão, preparou o caminho para os ministros, argumentando que “subsiste inabalado o estado de perfeita normalidade institucional da cidade e, por via de consequência, a certeza da desnecessidade da medida”.

E, de um ponto de vista histórico, os ministros do Supremo e os defensores do novo governo têm razão. O que acontece atualmente no Distrito Federal é completamente normal. Desde os tempos em que os caminhões entravam e saíam dos canteiros de obra sem descarregar o material, desvios, favorecimentos e relações espúrias em geral são uma espécie de tradição na capital. Talvez se um dia tais práticas acabassem, aí sim fosse o caso de se decretar a intervenção, pela absoluta anormalidade do fato.

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4 Respostas so far »

  1. 1

    […] decisão do STF, com o argumento irresistível de que a cidade encontrava-se num estado de “perfeita normalidade institucional“. O que o governo local chama de normalidade manifestou-se novamente nesta terça-feira, […]

  2. 2

    […] A despeito de considerações palacianas em contrário, as coisas aqui são tudo, menos normais. Não pode ser normal, por exemplo, o caradurismo de um cidadão que, depois de décadas de […]

  3. 3

    […] dos temas – do blogue, da cidade – não mudam . Marcha das Margaridas. Recorde de seca. Denúncias de fraude. Podia ser 2007. Podia ser semana passada. Mas é apenas quarta-feira, 17 de agosto de 2010. […]

  4. 4

    […] a simpatia de uns poucos, o ódio de meia dúzia e o desinteresse de um batalhão. Testemunhei cinco governadores (em breve talvez seis), protestos de todo tipo, silêncios […]


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