Condenado a viver (aqui)

A visão de Dom BoscoA verdade é que nunca soube o que vim fazer aqui. Talvez tenha sido um arroubo pós-adolescente tardio, talvez uma crise de meia-idade antecipada. Ou, quem sabe, eu só quisesse ficar bestificado e ver as luzes de Natal. Brasília é assim: uma citação musical, um quadradinho emno Goiás, uma abstração político-partidária. Um (nem tão) gigantesco lugar-comum com um milhão de carros, milhares de cargos públicos e dezenas de motivos de queixa. Tornei-me, aos poucos, um especialista nessa arte. Seca, corrupção, desigualdade, bolha, trânsito, marasmo, alienação, superficialidade… Mas admito: há algo de belo entre os ipês em flor e os tons irresistíveis do céu. Entre o silêncio da manhã e o vento gelado da noite. Entre o Plano-Piloto e Planaltina. Na mesa do bar, na confusão da Rodoviária. Nas manchetes provincianas do jornal. Não vim aqui mudar o mundo. Vim me vender, escrever chorumelas, chorar pitangas. Agora que consegui, em vez de ir embora, vou ficar. Brasília é uma ilha. É nela que vou me perder ou me encontrar.

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7 Respostas so far »

  1. 1

    Trovão said,

    Uma das coisas que tornaram Brasília menos angustiante nos últimos 50 anos foi o preço da passagem de avião – hoje mais acessível.

    Quando Brasília estiver muito estranha, é só esperar o feriado mais próximo e vir à praia no Rio.

  2. 2

    livioavelino said,

    É a sua versão “London, London” no cerrado? 🙂

  3. 3

    rchia said,

    Trovão,
    Esse, sem dúvida, é um grande alento. Mas acho que precisarei de outros até a aposentadoria…

    Lívio,
    Estou mais para “Haiti”!

  4. 4

    Flávia Flack said,

    Espero que o texto me motive a sentir o mesmo pela sua cidade… (sem ironias!)

  5. 5

    马少罗 said,

    终于承认,你喜欢巴西利亚市…还是”岛”?

  6. 6

    […] heideggeriano – o que estou fazendo aqui? – à caminhada irracional rumo a um beco sem saída, nunca pensei em passar tanto tempo na capital da República, assistindo à minha lenta […]

  7. 7

    […] Reclamar, aliás e de tudo, foi a inspiração inicial, mas aos poucos virou uma quixotesca missão. Sim, existe político honesto, cabeça de bacalhau e apaixonado por Brasília. E, como dizia Lao-Tsé, se não pode vencê-los, junte-se a eles. […]


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