Com mãe, com pai

Flores na mamãe“Como se pode?”, perguntava minha mãe diante da notícia de um crime horrível qualquer. Apesar dos mais de 40 anos vividos no Brasil, nunca dominou totalmente a língua, ainda que raramente lhe faltassem palavras. Nos últimos tempos, gostava de dizer que ia “falar com o Lula”, e quem a conhecia não tinha razão para duvidar de que, dada a oportunidade, cumpriria a ameaça. Era comum flagrá-la em conversas descontraídas com vizinhos, vendedores, funcionários públicos e desconhecidos em geral. Não que sua vida fosse fácil. Com meu pai, criou dois filhos, batendo perna, cruzando a cidade em ônibus e descobrindo os meandros dos serviços públicos. Era, para facilitar a compreensão, a Dona Helena. Suou muito e em bom português. A missão a cumprir lhe deixou espaço para raras paixões: novelas, comida, uma Coca-Cola “gelatina”. Da maior, porém, só me dei conta há pouco. Era apaixonada pelas conquistas dos filhos, que, às vezes, comemorava até às escondidas. As privações e os exageros transformaram-na num milagre da medicina. Driblou câncer, diabetes, hipertensão, reumatismo e uma coleção de outras doenças, sem sombra de regime ou exercício. Uma teimosa de carteirinha. Aos 69 anos, ainda queria cuidar dos filhos, das irmãs e, eventualmente, dos sobrinhos. E, ao seu modo, cuidava. Reunia a família para partidas ocasionais de ma jiang e, nessas horas, era gostoso vê-la sorrir com as piadas e as provocações à mesa improvisada. No fundo, não se importava em perder ou ganhar, pois, para ela, sua vitória já estava ali. Ser parte dessa vitória é meu consolo, mas confesso, com atraso incontornável, que queria mais. Mais partidas de ma jiang, mais piadas, mais sorrisos. E a chance de dizer, com um abraço apertado, que, sim, você merece.

***

Hoje eu poderia dizer, com doses iguais de rigor factual e mau gosto, que estou sem pai, nem mãe. A verdade, porém, é que, se posso ter uma certeza diante da força opressiva da morte, é a de que vou levá-los sempre no coração.

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10 Respostas so far »

  1. 1

    Alex Alves said,

    Estou sem palavras. Lindo texto, linda homenagem.
    Força, meu amigo!

  2. 2

    ReMoTa said,

    Lindo…

    Abraço – e muita força para você.

  3. 3

    Paula Vinha said,

    Que mãe linda. Belíssima homenagam.

  4. 4

    […] breve nota pessoal. Esta entrada foi publicada em Diário de Bordo e marcada com a tag despedida, diário, mãe. […]

  5. 5

    Bel said,

    RC, lindo texto, maravilhosa homenagem.
    E é verdade, vc vai sempre levá-los em seu pensamento e em seu coração. E assim, nunca estará sozinho! =)
    Beijos

  6. 6

    rchia said,

    Obrigado a todos pela visita e pelas palavras.

  7. 7

    Mel said,

    Chia, sua mãe era linda, como todas as mães são.
    Bless your heart!

  8. 8

    Yuk Ling said,

    a saudades não passa, queria tanto minha irmã de volta,,,

  9. 9

    […] Um amor. Um carro. Uma casa. Um emprego. Uma viagem. Uma bicicleta. Um livro. Um abraço. Um milagre. Mas neste aniversário, de presente, vou pedir menos Pinheirinhos, menos Danielas Prado, menos […]

  10. 10

    […] distância, disse adeus a meus pais, e, de perto, quase me despedi de mim […]


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