Archive for janeiro, 2011

O inferno são os outros

Progresso sem ordemEsta segunda-feira, 31 de janeiro, promete ser um dia de fúria para muitos brasilienses. Com a volta às aulas de parte das escolas e a iminente retomada das atividades plenas do Legislativo e do Judiciário, a calmaria no trânsito da capital deve dar lugar a motoristas engarrafados nas ruas e avenidas, novamente perplexos com a quantidade de veículos ao seu redor. Para estacionamentos de áreas comerciais e órgãos públicos, a previsão é de disputas olímpicas por um quinhãozinho de terra, em vagas existentes ou não.

A culpa por todo esse transtorno, como sabe qualquer criança de 12 anos, é das autoridades, que não entendem nada de engenharia de tráfego, não investem em transporte público, não promovem o compartilhamento e não viabilizam o uso de alternativas como a bicicleta. Sem dúvida, se o poder público fizesse sua parte, haveria espaço de sobra para carros, motos e caminhões.

Para todos os 1.233.000.

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XXXIV

GeléiaQuando o Pearl Jam lançou Ten, em 1991, bandas como Led Zeppelin, Pink Floyd, Black Sabbath e The Who transitavam entre os rótulos de “clássicos” e “velharias”. O CD só então começava a se popularizar no Brasil. Cartola eram um tipo de chapéu; os Mutantes, os X-Men; e Chico Buarque, um morador do Leblon. Cantarolar os versos de Alive foi então a opção mais saudável entre a rendição total à geração MTV e a audácia de penetrar o rock clássico ou a MPB. O disco sobreviveu às centenas de tocadas e até hoje faz parte da minha coleção. De repente, já se passaram vinte anos, e o resto, qualquer um que domine as operações básicas da soma e da subtração pode concluir por conta própria.

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Brasiliensão 2011

Maltratada como sempreO ano mal começou, e o Campeonato Brasilense da 1ª Divisão já avança para a conclusão da sua segunda rodada, com as emoções de sempre. Ontem, por exemplo, o clássico Brasiliense x Gama terminou num espetacular zero a zero – o típico teste pra cardíaco. De acordo com testemunhas, apesar de uma incrível bola na trave, o jogo foi truncado. Em certo momento, o Brasiliense, humilhado por não conseguir derrotar um time da 4ª divisão nacional, apelou para seu novo ataque MPB: Djavan e Bebeto. Não adiantou. Com o resultado, o Brasiliense caiu para o terceiro lugar, atrás de Ceilândia e Botafogo, nos critérios de desempate. Depois vêm Formosa, Gama, Atlético Ceilandense, CFZ e Brasília. Atlético e CFZ ainda completam a rodada hoje.

O Campeonato Brasiliense segue agitando os torcedores até maio. É o único estadual do mundo que, sem o ser propriamente, reúne times de mais de um estado. O Formosa é de Goiás, e o Unaí, ora na segundona candanga, é de Minas Gerais. Sem falar das potências do Distrito Federal.

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De mangas e jacas

Artocarpus heterophyllusA Mangifera indica e a Artocarpus heterophyllus são duas das figuras mais conhecidas das ruas de Brasília. A primeira, mais numerosa, acabou virando símbolo impróprio da cidade. A segunda, talvez graças à pujança de seus frutos, deu até nome a avenida. Exóticas, ambas vieram da Ásia para enfeitar os canteiros e cantinhos da capital brasileira, além de alimentar cidadãos mais ou menos esfomeados. Na cidade planejada, acabaram plantadas inclusive em estacionamentos, procedimento desaconselhado por botânicos, engenheiros agrônomos, paisagistas, biólogos e qualquer pessoa de bom senso. A engenheira florestal Roberta Maria Costa e Lima, que catalogou uma centena de espécies do Plano Piloto no guia de campo 100 árvores urbanas, diz ao Correio Braziliense que faltou pensar a forma e o local de plantio. Os transeuntes ousam discordar. Acham que faltou foi plantar também bananeiras, pitangueiras, jabuticabeiras, abacateiros, laranjeiras, cajueiros. Afinal, os flamboyants e ipês-rosas podem ser lindos, mas não enchem a barriga de ninguém.

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Cegueira violenta

Castelo de areiaO assassinato de um servidor do TCU, num possível caso de latrocínio, causou agitação na população brasiliense esta semana. A suspeita de que o homem teria sido vítima de um seqüestro-relâmpago em plena Asa Norte deixou os locais indignados e em busca de uma explicação para os casos de violência em pleno paraíso. Uma turma considerável partiu logo para as críticas à Polícia Militar, que não agiria à altura do melhor salário do país; outra preferiu atribuir parte da culpa às vítimas, sempre distraídas a convidar os marginais à ação. Um terceiro grupo espantou-se com a quantia sacada das contas do servidor pelo(s) criminoso(s): “Tudo isso por causa de R$ 300?”. O modesto valor, aparentemente, não justifica um homicídio.

Incompetência policial, desatenção, mesquinharia. Hipóteses mais elaboradas continuam pouco populares. Brasília, como se sabe, é um lugar especial. Aqui não há favelas, nem arrastões, nem desordem generalizada. As pessoas de bem não morrem com três tiros na cabeça numa beira de estrada. Quando acontece, a culpa é de alguém. De alguém.

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Brasília, ano V

Pelo vidroNum passe de mágica, num piscar de olhos, numa fração de segundo, num estalar de dedos, ou noutro clichê qualquer, inicio nestes dias meu quinto ano de Brasília. Do clássico questionamento heideggeriano – o que estou fazendo aqui? – à caminhada irracional rumo a um beco sem saída, nunca pensei em passar tanto tempo na capital da República, assistindo à minha lenta transformação em barata. Hoje vivo um transtorno bipolar, entre a euforia proporcionada pela tranqüilidade das férias e a depressão do ideal de vida local, tudo isso com a sensação episódica de não sair do lugar. Se sou feliz? Como diria Lao-Tsé, talvez num dia de Paulo Coelho, a felicidade é um estado de espírito. O que, obviamente, não se aplica ao meu caso, já que estou no Distrito Federal.

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