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Cartel general

Mãos ao alto!Nada como viver num lugar organizado. Em Brasília, antes de sair de casa, o motorista dono de um carro com tanque de 50 litros (vazio) já sabe que vai gastar R$ 133,50 para enchê-lo de gasolina. Quem propicia a conveniência são os postos de combustível. Pesquisar preços, por aqui, é um convite a dormir no volante: R$ 2,67, R$ 2,67, R$ 2,67, R$ 2,67…

Levantamento realizado pela Agência Nacional de Petróleo de 5 a 11 de julho, em 90 postos de Brasília, mostra uma diferença abissal entre os preços médio e máximo da gasolina: R$ 2,63 e, surpresa!, R$ 2,67. Em Belo Horizonte, os valores correspondentes ficaram em R$ 2,28 e R$ 2,56; em São Paulo, R$ 2,33 e R$ 2,69; em Porto Alegre, R$ 2,48 e R$ 2,59.

Vejamos, apenas por curiosidade, o art. 4º da Lei 8.137/90 e o art. 21 da Lei 8.884/94:

Art. 4° Constitui crime contra a ordem econômica:

(…)

II – formar acordo, convênio, ajuste ou aliança entre ofertantes, visando:

a) à fixação artificial de preços ou quantidades vendidas ou produzidas;

Art. 21. As seguintes condutas, além de outras, na medida em que configurem hipótese prevista no art. 20 e seus incisos, caracterizam infração da ordem econômica;

I – fixar ou praticar, em acordo com concorrente, sob qualquer forma, preços e condições de venda de bens ou de prestação de serviços;

O Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis Automotivos e de Lubrificantes do Distrito Federal (Sinpetro) costuma afirmar publicamente que tudo não passa de coincidência. Os motoristas de maior renda per capita do país preferem seguir emburrados e calados.

O suposto problema é que a suposta responsabilidade por supostamente investigar suposto esquema de suposto acordo para supostamente fixar preços é do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), com sede no longínquo Setor Comercial Norte, Quadra 2, Projeção C, na remota localidade de… Brasília.

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Deu zebra (II)

STCEVMea culpa, mea maxima culpa. Parado diante do Brasília Shopping, tentando ir para o trabalho, eu poderia ter pegado um táxi, caminhado, pulado na garupa de uma bicicleta ou até pedido carona a um dos carroceiros que circulam pela cidade. Em vez disso, cedi à tentação de confirmar a sabedoria popular e subi na zebrinha linha 22, diligente cumpridora do itinerário simplificado “SQS 216-416/W3 Sul-L2 Norte (SDN)/W3 Norte-L2 Sul (SDN)”.

Uma reta imaginária entre meu ponto de partida e meu destino desejado teria aproximadamente 1.800 metros. A velocidades médias de 5 km/h e 20 km/h, percorrer o trajeto consumiria 21,6 minutos a pé ou 5,4 minutos de bicicleta. De ônibus, seguindo pelas vias de circulação, parando em sinais e faixas, cruzando o Eixo Monumental três vezes (!) e descendo bem longe da meta, gastei mais de 30 minutos.

Anote aí: às vezes, para pegar uma zebrinha, só sendo um autêntico jumento.

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Estepe do crioulo doido

NovidadeSempre atento às estatísticas oficiais, o Correio anunciou, na edição da quarta-feira de cinzas, que o “estepe é o novo alvo do crime no DF”. No texto, um pouco mais preocupado com os fatos, esclarece que “o crime incomoda o brasiliense há dois anos”. Entendeu? Trata-se de um crime novo que acontece há dois anos. A matéria, pelo menos, delimita bem as situações de risco, ao informar que “os arrombamentos são mais comuns em estacionamentos públicos, enquanto o dono está no trabalho, na faculdade ou em casa” e ressaltar que “proximidades de locais de festas e de áreas de lazer também atraem os criminosos”. Ou seja, quem não estiver no trabalho, na faculdade, em casa, numa festa ou numa área de lazer, pode ficar tranqüilinho!

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Outro ano, outro estepe

Mão na rodaA despeito da tenra idade, Brasília ganha, aos poucos, tradições próprias. No caso dos motoristas, por exemplo, há um ritual que se repete todo ano, infalivelmente. Um ente travesso, de pés virados para trás, segundo relatos, entra em carros estacionados na ruaquadra e toma para si os objetos que lhe parecem mais interessantes. A polícia, quando acionada, registra tudo, mas alega não ter meios para deter a fantástica criatura do cerrado.

As vítimas, resignadas, conformam-se em consertar a porta e substituir os equipamentos subtraídos. Uma parte busca as lojas estabelecidas, enquanto a outra, na ânsia de “reduzir o prejuízo”, recorre aos preços imbatíveis do comércio informal. Entre a astúcia dos larápios curupiras e a malandragem deste último grupo, folcloristas e cientistas em geral ainda não conseguiram decidir o que é mais inacreditável.

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Autos de infração

AlucinaçãoTalvez eu seja tão obcecado pelo trânsito quanto pela meteorologia. Talvez eu simplesmente não saiba ler. Diz o artigo 178 do Código Brasileiro de Trânsito: “Deixar o condutor, envolvido em acidente sem vítima, de adotar providências para remover o veículo do local, quando necessária tal medida para assegurar a segurança e a fluidez do trânsito: infração média.” Pois, em Brasília, qualquer colisão mínima resulta num congestionamento porque os motoristas, com apoio da autoridade policial, fazem questão de deixar os carros parados no meio da rua até a chegada da perícia. É um caso extravagante de infração-direito. Ou talvez, sem negação das hipóteses anteriores, eu tenha apenas perdido a razão. Com essas e outras, convenhamos, não seria surpresa.

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Garrafas de lá e de cá

Conheço esse engarrafamento de algum lugar…Depois de uma semana tormentosa em São Paulo, tudo de que eu não precisava no meu primeiro dia de volta à capital era um engarrafamento. Só esqueci de avisar ao sujeito que resolveu capotar com o carro e, assim, transformar meu passeio diário pelo Eixo Monumental numa lenta e dolorosa procissão. Resultado: levei uma hora para cumprir um trajeto que, em condições normais, não exigiria mais do que vinte minutos.

Vinte minutos. Um terço de hora. Mil e duzentos segundos. Tempo suficiente para mudar uma vida. Ou percorrer três quarteirões no Centro de São Paulo. Não deixa de ser engraçado.

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Silêncio ensurdecedor

Vai para o trono ou não vai?A placa saúda os motoristas que chegam à capital: “Senhores visitantes, em Brasília evitamos buzinar”. O pior é que é verdade. Fon fon é uma onomatopéia rara nas vias da cidade. Espera-se 40 minutos atrás de um carro que não consegue entrar no fluxo, encosta-se no pára-choque de outro que segue a 20 km/h na pista da esquerda, mas nada de meter a mão na buzina. O brasiliense desconhece, ou finge desconhecer, esse eficaz, enquanto improdutivo, instrumento de catarse. Morde os lábios, desfia impropérios, faz cara feia; tudo menos ser malcriado. O problema é que, no trânsito, polidez não corresponde a efetividade. O motorista daqui é notoriamente barbeiro. E, se buzinada não pode, que leve pelo menos um troféu. Abacaxi.

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