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Amores capitais

A bater, sempreFaz cinco anos comecei a descrever aqui minhas impressões da vida em Brasília. Atraí, com um ou outro elogio e incontáveis reclamações, a simpatia de uns poucos, o ódio de meia dúzia e o desinteresse de um batalhão. Testemunhei cinco governadores (em breve talvez seis), protestos de todo tipo, silêncios ensurdecedores.

A distância, disse adeus a meus pais, e, de perto, quase me despedi de mim mesmo.

Andei a pé, de ônibus, de bicicleta. E de carro, com outros 1.399.999 autômatos, a reclamar do trânsito.

Reclamar, aliás e de tudo, foi a inspiração inicial, mas aos poucos virou uma quixotesca missão. Sim, existe político honesto, cabeça de bacalhau e apaixonado por Brasília. E, como dizia Lao-Tsé, se não pode vencê-los, junte-se a eles.

Não, não vendi minha alma, nem comprei um imóvel – o que, dizem por aí, daria no mesmo.

É só que passei a ver as coisas com outros olhos.

Olhos menores, ainda perdidos e muito mais sábios.

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Big véi

Vigiando as crimidéiasParece coisa de alerta recebido por e-mail: “Você e seus amigos ou familiares estão num bar ou restaurante, batendo papo e se divertindo…” A diferença é que, em vez de aparecer um sujeito avisando sobre um carro mal estacionado, a jogada começa bem antes, armada por insuspeitos agentes do… Detran-DF. À paisana, eles se misturam aos presentes, vigiando sem chamar atenção. Sim, os olheiros podem estar em qualquer lugar: na mesa ao lado, no balcão, na porta do banheiro. Sua missão: delatar bebuns com planos de dirigir para que outros agentes possam fazer o flagrante nas proximidades.

Segundo o Detran, o objetivo da operação Último Gole é reduzir a sensação de impunidade, fechando o cerco aos motoristas que insistem em beber e dirigir. Fechar o cerco, nesse caso, significa transformar todo mundo ao redor num potencial alcagüete. Agora, além de multado, o ébrio vai viver desconfiado.

“Estás apodrecendo. Estás caindo aos pedaços. Que és tu? Um saco de lixo. Agora, volta-te e olha-te de novo no espelho. Vês aquela coisa te olhando? É o último homem. Se és humano, a humanidade é aquilo. Agora, torna a vestir-te.”
George Orwell, 1984 (tradução de Wilson Velloso)

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Fila do cerrado

Flor do CerradoMais uma realização do Governo do Distrito Federal, a Torre de TV Digital, nova atração turística de Brasília, faz tanto sucesso que as filas neste 1º de maio chegaram a demorar duas horas. A estrutura, projetada por (quem mais?) Oscar Niemeyer e apelidada de Flor do Cerrado, tem 185 metros de altura. Os visitantes podem admirar a capital do mirante, a 120 metros do chão, ou desfrutar de restaurante, a 80 metros, e sala de exposições, a 60 metros. Depois de quatro adiamentos, a Torre de TV Digital foi inaugurada em 21 de abril, com a ilustre presença do governador Agnelo Queiroz, que herdou a obra de José Roberto Arruda.

Disse Agnelo no dia da festa:

Hoje, no dia do aniversário da cidade, é uma honra poder entregar a conclusão da obra física. Ainda falta uma parte importante, que é a instalação da antena.

A “parte importante”, para quem não entendeu, é o que torna a Torre de TV Digital a Torre de TV Digital.

Enquanto isso, para quem quiser conhecer o mirante mais caro do país, as visitas ocorrem nos fins de semana e feriados, das 9h às 17h, sempre que os elevadores estiverem funcionando.

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52 (do Segundo Tempo)

Só rezandoOs dados são do Ipea: o Distrito Federal registra ao mesmo tempo a maior renda per capita (R$ 50.438 por ano) e a maior desigualdade do país (Coeficiente de Gini de quase 0,62 contra média nacional de 0,54). Pois essas marcas valem, neste 21 de abril, mais uma comemoração milionária, com campeonato de vôlei de praia, feira do livro, festival de balonismo, reinauguração do Catetinho e apresentações musicais. Na imprensa local e nas redes sociais, sobressai um ufanismo desmedido, um misto de fuga da realidade e paciência exagerada, fundada no lugar comum de que Brasília, aos 52 anos, ainda tem muito tempo para resolver seus problemas. Brasília, afinal, é “capital de um Brasil audaz, bom na luta e melhor na paz”. Para os que estão mais para R$ 50.438 do que para 0,62, então, sempre melhor na paz.

Hino do Distrito Federal
(Letra: Geir Campos / Música: Neusa Pinho França Almeida)

Todo o Brasil vibrou
e nova luz brilhou
quando Brasília fez maior a sua glória
com esperança e fé
era o gigante em pé.
vendo raiar outra alvorada em sua História

Com Brasília no coração
epopéia surgir do chão
o candango sorri feliz
símbolo da força de um país!

Capital de um Brasil audaz
bom na luta e melhor na paz
salve o povo que assim te quis
símbolo da força de um país!

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Xocolatl

E por falar em ovosO que o brasiliense faz toda semana? Reclama da chuva? Reclama da seca? Comenta os preços dos imóveis? Compra um carro novo? Sim, claro, mas disso todo mundo já sabe. A novidade, divulgada pelo Ibope, é que o morador da capital tem também um hábito hebdomadário de comer chocolate. Nada menos que 73% dos brasilienses comem alguma forma da iguaria pelo menos uma vez por semana. É a unidade mais chocólatra da federação. Na Páscoa, naturalmente, essa mania se volta para os ovos. Uma pena que todo esse açúcar não signifique, necessariamente, uma vida mais doce.

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Prato virado

Bilhete para o paraísoO próximo domingo, 11 de março, é o dia mais esperado do ano e talvez de toda a incipiente década em Brasília. Não se fala, desde há muito, de outra coisa. Na capital, o Concurso do Senado, assim com caixa alta mesmo, é considerado melhor que pai-de-santo, telepastor e santo milagreiro: não só traz dinheiro, como cura doença, tira encosto e prende a pessoa amada. Há quem não saia, não durma, não coma e não pensetrabalhe, só para manter concentração absoluta no estudo e na prova, passaporte para um futuro de infinita felicidade. É chegar ao Senado e não precisar se preocupar com mais nada.

O que, convenhamos, é um tanto quanto preocupante.

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Tempos tenebrosos

Previsão de tempo ruimVocê abre a porta para a senhora, segura por tempo suficiente para que ela entre (lentamente) e, à sua passagem, tudo que se ouve é o silêncio. Cri cri cri. Pessoas mais e mais ensimesmadas, famílias que nutrem como valor fundamental o distanciamento calculado, a ética do meu pirão primeiro. A música repetia, já se vão mais de 15 anos, que Brasília é uma ilha, mas a ilha mesmo é o indivíduo. Depender pouco – ou nada – dos outros. Cuidar de si e de mais ninguém. A convivência como mal necessário a ser controlado. A solidariedade como exercício de fim de semana. O altruísmo como inclinação inescrutável. A fé. Virtude de quem não diz bom dia. Um leão em esconderijos.

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Relâmpagos

MedoCrise econômica internacional? Sucessão americana? Reflexos da primavera árabe? Pinheirinho? Copa do Mundo? Carnaval? Nada disso. O que aflige o brasiliense de verdade neste início de ano são os seqüestros-relâmpago. Na terça-feira, segundo a imprensa local, até um policial militar foi vítima do crime – e em pleno Setor Comercial Sul! Ninguém sabe mais o que fazer. Dar novo aumento às polícias mais bem pagas do Brasil? Pedir mais recursos ao governo federal? Fechar as fronteiras com o Entorno? Não importa, desde que seja uma solução simples, que não exija envolvimento excessivo em questões sociais e políticas. Porque, convenhamos, se o preço for esse, é melhor até ser seqüestrado, hein.

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3.5

Conte mais 34Aniversário é dia de soprar a velinha e fazer um pedido. Um amor. Um carro. Uma casa. Um emprego. Uma viagem. Uma bicicleta. Um livro. Um abraço. Um milagre. Mas neste aniversário, de presente, vou pedir menos Pinheirinhos, menos Danieles Prado, menos Duvaniers Paiva. Eu talvez não mereça, mas nosso país com certeza merece, e, convenhamos, já estou ficando velho demais para esperar.

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Banho necessário

Engarrafamento nos fins de semanaA fila de carros na BR-040 em qualquer fim de semana ensolarado anuncia a chegada ao Parque Nacional de Brasília. Mais conhecido como Água Mineral, o parque é a legítima praia da capital, e não só por permitir a rara união de sol e água. É ao redor e dentro das duas piscinas (Pedreira e Areal ou simplesmente “velha” e “nova”) que se encontra gente de verdade: moças passando todo tipo de óleo no corpo, crianças saltando na água, marmanjos tentando atrair os macacos-prego, namorados, famílias imensas, jovens senhoras. A cerca de 10 km do centro de Brasília, não podia estar mais distante da assepsia e prosperidade do resto da cidade, um quase literal oásis no deserto.

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R$ 28,5 bilhões em ação

SobrandoO próprio Governo do Distrito Federal anuncia: o orçamento local para 2012, de R$ 28,5 bilhões, é o maior da história. E, assim, comemora a garantia de “mais recursos para a saúde, a educação, a segurança pública e o transporte para melhorar a vida da população”. Sem desmerecer a sinceridade, quase eufórica, do comunicado, só pode ser falta de assessoria. Ou uma estratégia revolucionária. Governante dizer que o dinheiro vai dar para mais? E aquela história de que os recursos são limitados? E o papo de que não é por falta de vontade que não se faz isso ou aquilo (subentendendo-se que é por falta de dinheiro)? A população da capital, e do Entorno, vai ter de esperar o ano passar para ver o que esse megaorçamento esconde. Esconde, claro, é força de expressão.

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Peças

De cabeça para baixoO fim de semana começou com mais um capotamento no Eixo Monumental: um motorista tentou desviar de um carro parado no sinal vermelho e acabou de cabeça para baixo. A cena, visualmente impactante, não é exatamente rara na via mais conhecida da capital. Nos últimos anos, entre outros tantos prováveis casos incógnitos, alguns acidentes do gênero até ficaram famosos. Um adolescente pegou o carro do tio sem autorização e acabou botando um incauto parado no sinal para dar uma volta. Uma jovem – que estaria trocando um CD – decolou ao, involuntariamente, usar a traseira de outro veículo como rampa. Outra mulher perdeu a direção e quase invadiu a Câmara dos Deputados com o carro. Rolando.

Talvez seja a monotonia das seis faixas de rolamento que se estendem em linha reta por 16 quilômetros… Talvez seja o excesso de sinais… Talvez seja o piso escorregadio… Talvez…

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Cinema maravilha

Olho da ruaUm sábado no Espaço Itaú. A senhora de uns 60 anos sorri e me pergunta sem cerimônia: “Você veio assistir a Um conto chinês?” Eu, legítimo Chiang O’Lyi, respondo meio desconcertado que sim, e ela completa na hora: “É ma-ra-vi-lho-so!” O que dizer? Não, minha senhora, maravilhoso é recuperar um cinema decente e, de quebra, encontrar uma pessoa simpática e espontânea – ainda que meiototalmente sem noção. O filme mesmo é só excelente.

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Correndo na real

E no sétimo dia...É oficial: a Corrida de Reis de Brasília, em 2012, vai ser no dia… 28 de janeiro. A expectativa do governo local é de receber até 6 mil inscrições com a mudança de data – em 2011 foram 3,5 mil. É que, no Dia de Reis original, a competição candanga acabava relegada ao segundo plano da São Silvestre e de outras corridas país afora. Agora, espera-se não só maior participação na prova, como um impulso ao turismo com o afluxo de atletas de outros estadosoutras unidades da federação.

A confiança no sucesso da iniciativa é tamanha que o GDF já estuda mudar o desfile das escolas de samba para abril e iniciar as comemorações de fim de ano em outubro.

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Dia do Evangélico

E no sétimo dia...O Dia do Evangélico, comemorado pelos brasilienses nesta quarta-feira, 30 de novembro, é um feriado que sofre de múltipla personalidade. Primeiro, a data, embora instituída oficialmente pela lei distrital 893/95, é obedecida ao gosto do freguês. As repartições públicas federais, por exemplo, ignoram a folga solenemente – para a União, o Dia Nacional do Evangélico, instituído pela Lei 12.328/2010, não é feriado. Além disso, a comemoração dos evangélicos não é unanimidade nem entre os líderes… evangélicos, muitos dos quais chegam ao extremo de defender a separação entre estado e igreja! Tampouco a data é consensual: se em Brasília o dia é 30 de novembro, em Água Doce do Norte (ES) é 22 de julho, enquanto em Barreiras (BA) é 2 de agosto. Aquidauana (MS), com o segundo sábado de agosto, e São José da Tapera (AL), com o terceiro sábado de novembro, preferem as datas móveis. E há quem ache, simplesmente, que todo dia é dia do evangélico.

Pensando bem, se ainda não é, estamos quase lá.

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