Archive for junho, 2009

Outras paixões

Os carros sumiramComo já se sabe desde o Ipiranga, o brasileiro é apaixonado por carro, e o brasiliense, aparentemente, mais do que os outros. Porém, contudo, entretanto, todavia, nem só de automóvel vive o coração do candango, como às vezes se dá a entender. Eventos neste último domingo de junho mostraram que o brasiliense também é apaixonado por moto (1º Passeio Motociclístico do Corpo de Bombeiros), por bicicleta (7º Passeio Ciclístico Rodas da Paz) e pelos próprios pés (Circuito das Estações – Etapa Inverno). Menos mal.

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Kafka e Conrad

Brasília é um barato, e eu...Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

Uma das delícias de voltar para casa é ouvir a pergunta de amigos e parentes: “E aí, tá gostando?” Sim, não, quase sempre mais ou menos; o que importa mesmo é a impressão de que a mudança foi outro dia. Porque cedo ou tarde a curiosidade e a falta de assunto são derrotadas pela crueldade dos fatos. Durmo um expatriado transitório e acordo um candango adotivo. O horror! O horror!

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Indefinível

De outro planeta?As frases mais famosas sobre Brasília – verídicas ou não – são, invariavelmente, dos “pais” da capital. Do exagero (“O céu é o mar de Brasília”, Lucio Costa) ao realismo (“O ruim de Brasília é que quando a gente chega lá percebe que a cidade está inacabada”, Oscar Niemeyer), passando pela poesia (“Tudo se transforma em alvorada nesta cidade, que se abre para o amanhã”, Juscelino Kubitschek), essas declarações têm em comum um tom oficioso e, de certa forma, previsível.

Não surpreende, portanto, que as melhores definições sejam de gringos:

“Em Brasília, a abstração da cidade oferece pelo menos uma certeza: ao menos aqueles que são loucos o suficiente para atravessar suas vias expressas urbanas – pondo a perigo suas vidas no processo – são seres humanos. A raça humana não é, em nenhum lugar, tão incongruente como nesse entorno extra-terrestre, com a exceção dessas criaturas minúsculas que se tocam e andam a pé.”
Jean Baudrillard, Cool Memories III, Fragmentos 1991-1995

“A impressão que tenho é de estar chegando em um planeta diferente.”
Iuri Gagarin, em visita a Brasília (1961)

E, para quem mantém uma relação difícil com as palavras, vem também do estrangeiro uma inspirada síntese visual, conquanto datada, da cidade.

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Gastronomia pública (II)

Milhões na mesaUm dos temas mais palpitantes do início do blog, a gastronomia pública, virou recentemente tema de série do Correio Braziliense*. O leitor do jornal ficou sabendo, por exemplo, que funcionam, hoje, dez restaurantes subsidiados na Esplanada dos Ministérios e que o mais barato é o do bloco R (Comunicações e Transporte), com um quilo de comida a diminutos R$ 7,97. Descobriu também que uma única empresa opera cinco desses estabelecimentos e que fora dali, no paraíso do Legislativo e do Judiciário, a comida é melhor e mais cara.

Algumas dúvidas, no entanto, permanecem. Restaurantes em órgãos públicos dão lucro? Um sócio da empresa Manancial garante que “vale a pena”. Para uma sócia do Taioba, porém, “o negócio é pouco lucrativo”. E os subsídios? Uma matéria informa que “os restaurantes da Esplanada não se beneficiam de subsídios integrais”. Outra garante que, no Legislativo e no Judiciário, “o volume de subsídios – como isenção ou redução na cota de aluguel, água ou energia – é menor”. Interessante e pouco conclusivo.

No fim, a série satisfaz como serviço e curiosidade, mas fica devendo no aspecto investigativo. A pança cheia, pelo menos, continua garantida.

* As matérias foram publicadas nos dias 24/5, 01/6, 08/6 e 15/6. O acesso ao conteúdo do Correio é restrito a assinantes.

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Vida e qualidade

Sombra e água (de coco) frescaOs brasilienses andam inconsoláveis. Depois de se consagrar como “cidade de melhor qualidade de vida no Brasil”, segundo ranking da consultoria americana Mercer, Brasília sequer aparece numa nova listagem, agora da revista britânica Economist. Rio de Janeiro e São Paulo ficam com a honraria, empatados no 92º lugar mundial, entre 140 concorrentes. Na avaliação da Mercer, divulgada em abril, Brasília ocupa a 105ª posição, à frente do Rio (117º), São Paulo (118º) e Manaus (130º).

Os argumentos da torcida candanga já estão na ponta da língua: a comparação da Mercer é mais abrangente, por considerar 215 países, e mais criteriosa, por avaliar 39 fatores em 10 categorias contra 30 e 5, respectivamente, da Economist. Brasília na cabeça!

Aliás, deve ser por isso que no banco de permutas do meu trabalho há 209 pessoas querendo sair do Distrito Federal (para 19 capitais) e 9 interessadas em fazer o trajeto contrário.

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Agora sou contra

Consciência cidadãComo se sabe, os imóveis são escassos em Brasília, o que provoca todo tipo de excentricidade no mercado. Um apartamento de 90 m² no Sudoeste, usado, não sai por menos de R$ 600 mil (as más línguas – e os anúncios numerosos – sugerem que, atualmente, não sai nem por mais). No novo bairro “ecológico” Noroeste, com início de vendas previsto para o segundo semestre, o metro quadrado é estimado em R$ 8 mil. Os apartamentos mais humildes não devem custar menos de R$ 840 mil. Mas o pessoal acha tudo muito normal.

O que dizer da reação à perspectiva de construção de duas novas quadras no supracitado Sudoeste? Sempre que o polêmico assunto esquenta, aparecem faixas indignadas na área do futuro empreendimento, com mensagens como “Expansão = desmatamento criminoso + 2.000 veículos na área” e “Expansão irresponsável: quem estará por trás desse projeto?”. Do projeto, quem está por trás é a construtora Antares. E dos protestos? Por acaso seriam alguns dos moradores das 26 (vinte e seis) outras quadras residenciais da região?

O curioso é que, na década de 1990, quando começou a ocupação do Setor Sudoeste, ou ao longo dos anos desde então, nenhum desses ciosos cidadãos tenha levantado a voz contra o “desmatamento criminoso” e a “expansão irresponsável”. Agora, com a possível chegada, numa só batelada, de 22 prédios e 3.500 vizinhos, assistimos ao glorioso despertar do espírito cívico na população local! Detalhe: as duas novas quadras, exatamente como as outras 26, estão previstas no projeto Brasília Revisitada, de Lucio Costa, apresentado em 1989.

E o pessoal acha tudo muito normal.

p.s.: Existe, sim, um aspecto nebuloso na história: a forma de transferência dos terrenos da proprietária anterior, a Marinha do Brasil, à construtora, sob investigação do Ministério Público Federal.

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Febre da chuva

Ajeita isso aí, São Pedro!Para dar adeus a maio, um domingão de febre e chuva, mais um sinal de que o mundo vai acabar em breve. Este ano, em vez de marcar o início do festival de protestos contra a seca (“nossa, já faz quase dois meses que não chove, e tá só começando”), junho será apenas junho. E a febre? Digamos que é mais fácil chover em junho31 de maio do que eu ficar doente.

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