Archive for julho, 2010

Aos vencedores, as maçãs (e pêras)

Muita vitamina B1 e B2Festa na comunidade frugívora brasiliense! Nos próximos dias, o Distrito Federal deve aprovar uma isenção de ICMS para a maçã e a pêra, o que pode resultar numa redução de preço de até 20%. Hoje, segundo o Correio Braziliense, o quilo da pêra Williams chega a R$ 9; com a mudança, cairia a até R$ 7,20. No caso da maçã Gala, a queda seria de R$ 5 para R$ 4. Com os novos preços, garantem os varejistas, botar mais frutas na mesa vai ser mamão com açúcar!

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O Estado sou eu!

O império dos mais iguaisHá menos de um mês, o Distrito Federal livrou-se de uma intervenção federal, por decisão do STF, com o argumento irresistível de que a cidade encontrava-se num estado de “perfeita normalidade institucional“. O que o governo local chama de normalidade manifestou-se novamente nesta terça-feira, quando uma empresa de UTI móvel escapou de ter de desocupar uma área pública graças à intervenção da primeira-dama do DF, Karina Rosso, que sem qualquer tipo de cargo ou mandato impediu, presencialmente, a ação dos fiscais da Agência de Fiscalização (Agefis).

A comprovar a absoluta normalidade, a ação no melhor estilo “eu quero porque posso”, reminiscente das capitanias hereditárias, passou discretamente pelos principais jornais da capital. O Correio Braziliense, por exemplo, destinou ao assunto nada mais que uma notinha – que, aliás, não fez qualquer menção à atuação da primeira-dama. Coube ao recém-chegado Destak o privilégio – ou ousadia – de ser o único a divulgar o episódio com certo… ahm… destaque.

O imbróglio resolveu-se com uma autorização feita às pressas pelo Administrador do Lago Sul – que, decerto, demonstraria a mesma celeridade e diligência diante da manifestação de qualquer cidadão comum – para a permanência da empresa no local por mais 120 dias. Tudo muito normal.

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Condenado a viver (aqui)

A visão de Dom BoscoA verdade é que nunca soube o que vim fazer aqui. Talvez tenha sido um arroubo pós-adolescente tardio, talvez uma crise de meia-idade antecipada. Ou, quem sabe, eu só quisesse ficar bestificado e ver as luzes de Natal. Brasília é assim: uma citação musical, um quadradinho emno Goiás, uma abstração político-partidária. Um (nem tão) gigantesco lugar-comum com um milhão de carros, milhares de cargos públicos e dezenas de motivos de queixa. Tornei-me, aos poucos, um especialista nessa arte. Seca, corrupção, desigualdade, bolha, trânsito, marasmo, alienação, superficialidade… Mas admito: há algo de belo entre os ipês em flor e os tons irresistíveis do céu. Entre o silêncio da manhã e o vento gelado da noite. Entre o Plano-Piloto e Planaltina. Na mesa do bar, na confusão da Rodoviária. Nas manchetes provincianas do jornal. Não vim aqui mudar o mundo. Vim me vender, escrever chorumelas, chorar pitangas. Agora que consegui, em vez de ir embora, vou ficar. Brasília é uma ilha. É nela que vou me perder ou me encontrar.

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Do pó ao pó

Levantou poeira!Os efeitos da estiagem, que finalmente chegou para valer, vão muito além dos sapatos imundos, da garganta seca e das implicações sebáceas. O ar parece invariavelmente carregado de pó, às vezes de fumaça, e a sensação é de se estar numa permanente mistura de deserto, canteiro de obra e festa rastafári. E não adianta virar a cara; do outro lado, vem sempre uma nuvem, talvez invisível, mas nunca inócua. E, para piorar, hoje tem show da Ivete. Poeira… poeira… poeira…

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Água de beber

Se você pensa que cachaça é agua...Deu no jornal: as brasilienses foram vice-campeãs de exagero no consumo de álcool em 2009. Segundo levantamento do sistema Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), 16,5% das mulheres da capital apresentaram consumo abusivo de bebidas alcoólicas, ou seja, ingeriram quatro ou mais doses numa mesma ocasião. Só perderam, no quesito levantamento de copo, para as soteropolitanas (17,1%).

O golinho a mais, aqui e ali, pode ser interpretado de várias maneiras: descontração, irresponsabilidade, alegria, vazio existencial, libertação da opressão masculina… Uma análise que fuja do rasteiro, entretanto, depende de uma discussão com dados empíricos, bases teóricas e metodologia científica. De preferência, na mesa de um bar, com quatro doses para começar.

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Normalidade

Uma interpretação excepcional da Constituição“Tá olhando o quê? Eu sou normal!”, dizia Francisco Milani, na pele de um de seus personagens mais conhecidos. Agora, tomada pelo STF a decisão contrária à intervenção federal, o bordão poderá muito bem ser assumido por Brasíliapelo Distrito Federal. Na opinião majoritária entre os ministros, afirmada por um acachapante 7 a 1, a capital superou o trauma do escândalo protagonizado pelo ex-governador Arruda graças à atuação de suas instituições, dispensando assim o “antídoto extremo” defendido pela Procuradoria-Geral da República, grande parte da população local e a torcida do Flamengo.

O Distrito Federal voltou à “normalidade” a despeito de manter na Câmara Legislativa a maioria dos supostos comparsas do suposto esquema criminoso entranhado no (suposto?) governo; de ter visto, há menos de um mês, o Conselho Nacional do Ministério Público instaurar processo administrativo disciplinar contra seu procurador-geral de Justiça; de haver assistido, há duas semanas, à descoberta pela Polícia Federal de um bunker com dinheiro e documentos na casa de uma promotora do MPDFT; e de receber, quase diariamente, notícias alentadoras, como a da denúncia pelo Ministério Público Federal de nove deputados distritais que, às vésperas da eleição do governador-tampão Rogério Rosso, em abril último, hospedaram-se num hotel de luxo em Goiânia, com despesas pagas por um empresário.

Em sustentação oral no tribunal, o enviado do governador Rosso, procurador Marcelo Galvão, preparou o caminho para os ministros, argumentando que “subsiste inabalado o estado de perfeita normalidade institucional da cidade e, por via de consequência, a certeza da desnecessidade da medida”.

E, de um ponto de vista histórico, os ministros do Supremo e os defensores do novo governo têm razão. O que acontece atualmente no Distrito Federal é completamente normal. Desde os tempos em que os caminhões entravam e saíam dos canteiros de obra sem descarregar o material, desvios, favorecimentos e relações espúrias em geral são uma espécie de tradição na capital. Talvez se um dia tais práticas acabassem, aí sim fosse o caso de se decretar a intervenção, pela absoluta anormalidade do fato.

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